As CEBs não são somente uma Igreja
que é sinal visível do Reino de Deus no
Mundo (como vimos), mas são
também - e ao mesmo tempo - uma Igreja que é militante de um Mundo Novo.
Por
serem uma Igreja profundamente inserida e encarnada na vida do Povo - as CEBs são aliadas ou organicamente ligadas a
todas as Forças Sociais Populares:
Movimentos Sociais Populares, Sindicatos
de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares, Conselhos de Direitos,
Fóruns ou Comitês de Defesa dos Direitos Humanos e de Cuidado com a Irmã Mãe
Terra Nossa Casa Comum, de Comissões de Justiça e Paz, de Entidades de Jovens Estudantes e Outras
Organizações Populares.
As CEBs
têm uma identidade eclesial,
reconhecem a autonomia das Forças
Sociais Populares e são parte integrante delas.
Por
serem portadoras do novo, as Forças
Sociais Populares fazem acontecer um Projeto alternativo ao Projeto
Capitalista neoliberal dominante: o
Projeto Popular (social, econômico, político, ecológico, cultural e religioso),
o Projeto de Outro Mundo possível, o
Projeto de um Mundo Novo, que - à luz da fé - é o Reino de Deus acontecendo
na história do ser humano e da Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum.
Em sua ação evangelizadora, ou seja, no anúncio da Boa Notícia do
Reino de Deus, as CEBs são servidoras e samaritanas, vivem a compaixão e a misericórdia e estão sempre do e ao lado
dos pobres.
Para as CEBs, a “opção pelos
pobres” (empobrecidos), marginalizados, oprimidos, excluídos e descartados não
é uma “opção preferencial”, ou seja, não é uma alternativa entre duas ou mais
alternativas, mas é o caminho que leva à vida: o caminho de Jesus de Nazaré e
de seus seguidores e seguidoras.
A “opção pelos pobres” é profundamente
evangélica - profética e libertadora - e não meramente ideológica (embora
as ideologias sejam uma mediação necessária, por ser o ser humano um ser histórico,
situado e datado). Ela é o eixo estruturante
do jeito de ser Igreja das CEBs e de sua ação evangelizadora. Todos e todas
são convidados e convidadas a entrar nesse caminho. A partir dos e das pobres -
e junto com eles e elas - as CEBs participam do processo de libertação do ser humano todo e de todos os seres humanos
no mundo com o mundo, segundo o Projeto de Deus.
O referencial das CEBs é sempre
a práxis de Jesus de Nazaré. Pela
sua proximidade, compaixão e entranhável solidariedade, ele tornou-se defensor intransigente do
povo; denunciou, com indignação e firmeza, a hipocrisia dos fariseus e doutores
da Lei. “Serpentes! Raça de cobras venenosas!” (Mt 23,33). Dialogou com o jovem
rico, que - pelo seu apego aos bens - não teve coragem de segui-lo e foi embora
triste. Encontrou com Zaqueu - também homem rico - em sua casa, que se
converteu e mudou totalmente de vida, praticando a partilha dos bens.
A presença de Jesus e o anúncio da Boa Notícia do Reino de Deus - que
é a sua Utopia, o seu Projeto de Vida - não deixaram e não deixam ninguém
indiferente (ou, como se costuma dizer, “em cima do muro”). Todos e todas sentiram-se
e sentem-se obrigados e obrigadas a tomar uma posição: a favor ou contra.
Pela sua pregação, Jesus foi
considerado subversivo. “Achamos
este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23,2).
Em nossa realidade, a “opção
pelos pobres” leva necessariamente as CEBs - uma Igreja que é militante de
um Mundo Novo - a tomar uma posição
clara e firme contra o sistema capitalista neoliberal, denunciando - com coragem profética - a perversidade do sistema, e lutando para abrir caminhos novos que levem a mudanças
não só conjunturais, mas também e sobretudo estruturais, em vista de um novo modelo de sociedade.
Por fim, as CEBs são uma “Igreja
pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres": a Igreja de Jesus
de Nazaré, a nossa Igreja.
Marcos
Sassatelli, Frade dominicano
Doutor
em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor
aposentado de Filosofia da UFG
E-mail:
mpsassatelli@uol.com.br
Goiânia, 15 de setembro de 2021
https://portaldascebs.org.br/cebs-uma-igreja-que-e-militante-de-um-mundo-novo/