quinta-feira, 23 de abril de 2026

Tribunal de Justiça de Goiás: descaradamente injusto



“Mais de 40% da remuneração de juízes é de benefícios” (O Popular, 11-12/04/26. Manchete da primeira página).


O Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO) “pagou R$ 196 milhões acima do teto constitucional a seus magistrados em 2025”. “São penduricalhos que vão se acumulando e se empilhando e que ao final fazem com que o teto constitucional em Goiás e em outros Tribunais seja meramente decorativo” (Leia a matéria completa no “O Popular”, acima citado, p. 4).


A falta de ética e a injustiça são tão despudoradas que provocam vômito em qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade humana.


Vejam só a “cara-de-pau” dos juízes: “O TJ-GO e a Associação dos Magistrados do Estado de Goiás (ASMEGO) argumentam que todos os pagamentos foram feitos de acordo com a legislação” (ib.).


Se isso for verdade, a imoralidade é maior ainda por ser uma manifestação concreta do mal moral social - estrutural (em linguagem filosófica) ou do pecado social - estrutural (em linguagem teológica).


Pergunto:


1.         O próprio nome “Tribunal de Justiça” não é uma mentira?

2.         Será que esses magistrados têm condições de fazer “Justiça”?

3.         Por que os magistrados não criam penduricalhos (gratificações ou indenizações) para trabalhadores/as que ganham até um salário-mínimo por mês?

Dados do Censo 2022 do IBGE revelam que mais de um terço (35,3%) dos trabalhadores/as brasileiros recebe até um salário-mínimo. Isso equivale a cerca de 34,7 milhões de pessoas.

4.         Nessa realidade de injustiça - legalizada e institucionalizada - falar de irmãos e Irmãs não é uma mentira?

5.         Por que Jesus de Nazaré não fez aliança com os poderosos de sua época: o Imperador, Pilatos, Herodes, Sumos Sacerdotes e outros?

6.         Nossas Igrejas cristãs não traem o verdadeiro sentido do Evangelho (a Boa Notícia de Jesus de Nazaré) quando incorporam, em suas estruturas, comportamentos totalmente antiéticos do Imperialismo, do Escravismo (antigo e moderno), do Feudalismo e do Capitalismo?

7.         Não é repugnante ver Igrejas cristãs ou Comunidades dessas Igrejas que - sobretudo em época de eleições - apoiam publicamente políticos que nada têm a ver com a proposta de vida de Jesus de Nazaré?

8.         Onde está hoje a dimensão profética das nossas Igrejas cristãs?

 

A proposta de vida do Evangelho (que é a Boa Notícia de Jesus de Nazaré), se for bem entendida, é a mais radical e mais revolucionária que existe. Segundo essa proposta, todos e todas somos filhos e filhas do mesmo Pai-Mãe, que é Deus, irmãos e irmãs em Cristo, chamados e chamadas - na diversidade de dons (carismas) e na pluralidade de serviços (ministérios) - a continuar a missão de Jesus no mundo de hoje.


Nessa proposta de vida do Evangelho não existem classes e nem hierarquia. Toda Comunidade Cristã de irmãos e irmãs deve ser universal (católica) e evangélica (radicalmente humana). "Quem segue Jesus Cristo, ser humano perfeito, torna-se mais ser humano" (Concílio Vat. II. A Igreja no mundo de hoje - GS 22).


“Ouçam a minha voz e eu serei o Deus de vocês, e vocês serão o meu povo. Andem sempre no caminho que eu lhes indicar, para que vocês sejam felizes” (Jr 7, 23).


“Senhor, seus caminhos são justos e verdadeiros” (Ap 15, 3).


“O Amor de Deus se realiza plenamente em quem guarda sua Palavra. É assim que reconhecemos que estamos nele: quem diz que permanece em Deus deve caminhar como Jesus caminhou” (1Jo 2, 5-6).


E como Jesus caminhou? “Nasceu numa manjedoura como sem-teto. Foi migrante no Egito. Foi trabalhador carpinteiro. Em sua vida pública, sempre esteve do e ao lado dos pobres, doentes e necessitados. Foi preso como subversivo e morreu na cruz como malfeitor.

Jesus venceu a morte, ressuscitou, está vivo e caminha conosco.  "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14, 6). “Eu vim para que todos/as tenham vida e vida em plenitude” (Jo 10,10). “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18, 20).

                         Tribunal de Justiça do Estado de Goiás - TJGO

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Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 20 de abril de 2026


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Arquidiocese de Goiânia: 70 anos

 


A Arquidiocese de Goiânia foi criada por Pio XII em 26 de março de 1956, junto con a Província Eclesiástica de Goiânia. Sua instalação aconteceu no dia 16 de junho de 1957 (mais de um ano depois), com a presença do Núncio Apostólico no Brasil Dom Armando Lombardi e de Dom Fernando Gomes dos Santos que assumiu o serviço (ministério) de 1º arcebispo.

Em 26 de março deste ano de 2026 (e durante o ano todo) celebramos os 70 anos da criação da Arquidiocese. Fazendo a memória desta data, sinto a necessidade de partilhar com meus irmãos e minhas irmãs algumas reflexões a partir de minha longa experiência eclesial e pastoral na Arquidiocese.

Em 11 de outubro de 1962 - convocado pelo Papa S. João XXIII - teve início o Concílio Vaticano II, que foi encerrado em 8 de dezembro de 1965 pelo Papa S. Paulo VI. Foi realizado na Basílica de São Pedro - no Vaticano - e teve como objetivo a modernização (aggiornamento) da Igreja. No dizer do Papa S. João XXIII - abriu as janelas da Igreja para o mundo.

A Arquidiocese de Goiânia viveu profundamente o clima do Concílio Vaticano II. Cresceu e se desenvolveu como uma Igreja renovada e libertadora (uma Igreja pós-conciliar). Dom Fernando Gomes dos Santos participou do Concílio Vaticano II e gostava de dizer que se converteu no Concílio.

Fazendo a memória dos 70 anos da Arquidiocese de Goiânia, não podemos deixar de lembrar a II Conferência de Medellín (24 de agosto - 6 de setembro de 1968). Seus documentos encarnam os ensinamentos do Concílio Vaticano II na realidade da América Latina e do Caribe.

A Conferência nos ensina que a Comunidade Eclesial de Base (CEB) é “o primeiro e fundamental núcleo eclesial” ou “a célula inicial da estrutura eclesial”, e que a Paróquia é “um conjunto pastoral unificador das Comunidades de Base” (Medellín, XV, 10 e 13). As palavras são claras. Não precisam de explicação. Só não entende quem não quer entender.

No meu trabalho pastoral nas Comunidades da periferia de Goiânia e na Coordenação da Pastoral Arquidiocesana sempre procurei viver o “novo e - ao mesmo tempo - antigo jeito de ser Igreja” das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que - como ideal a ser perseguido - é o “jeito de toda a Igreja ser” (que é, hoje, o jeito de ser de Jesus de Nazaré e das primeiras Comunidades Cristãs).

Em uma de nossas Assembleias Eclesiais Arquidiocesanas chegamos a elaborar - em forma de documento e de cartilha - um Plano de Pastoral no qual as CEBs eram a prioridade das prioridades.

Numa Comunidade Eclesial de Base (CEB), todos e todas - na diversidade dos dons e serviços (ministérios) - são iguais em dignidade e valor. Não existem classes. Entre as diferenças, a única que realmente nos distingue (sem nos tornar mais importantes) é a profundidade do amor - que só Deus conhece - com o qual colocamos os nossos dons a serviço dos irmãos e irmãs.

As CEBs são Igreja Pobre, a partir dos Pobres, com os Pobres, dos Pobres e para os Pobres. Sendo para os Pobres, é Igreja para todos e todas.

Mesmo profundamente convencido que tudo é graça de Deus, sinto-me honrado com o depoimento de Dom Fernando Gomes dos Santos - do qual fui irmão, amigo e colaborador por 15 anos - a respeito do trabalho pastoral - meu e de outros irmãos e irmãs - na Arquidiocese de Goiânia.

"O Secretariado da Pastoral Arquidiocesana (SPAR) - escreve Dom Fernando - tem sido o grande centro de convergência e de irradiação de tudo o que se passa na Arquidiocese no campo pastoral. Dotado de sede própria, que integra o conjunto Catedral-Cúria Metropolitana-SPAR, no centro da cidade, constitui o ponto mais dinâmico da Arquidiocese. Hoje o SPAR conta com o Coordenador da Pastoral, Frei Marcos Sassatelli, que é também Vigário Geral, e com uma extraordinária equipe de sacerdotes, religiosas/os e leigas/os competentes, de rara dedicação e eficiência. No SPAR, funcionam oito Comissões que dinamizam as atividades fundamentais, referentes às prioridades do Plano Pastoral, elaborado em Assembleia Arquidiocesana e constantemente estudado nas reuniões e encontros. O SPAR produz, também, grande número de boletins e impressos, que são divulgados nas Paróquias da Arquidiocese, principalmente nas Comunidades da periferia, e que são encomendados por outras Igrejas Particulares do Brasil afora. Grande é também o número de cursos ministrados nas Comunidades da capital e do interior" (Veja o depoimento completo na Revista Eclesiástica Brasileira - REB, março de 1985). Parabéns à Arquidiocese de Goiânia pelos 70 anos.

(Veja também o meu artigo: Jubileu de diamante da Arquidiocese de Goiânia, em: https://freimarcos.blogspot.com/2017/06/jubileu-de-diamante-da-arquidiocese-de.html ou em: https://ihu.unisinos.br/publicacoes/78-noticias/568755-jubileu-de-diamante-da-arquidiocese-de-goiania)



Reunião da CEB



Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 08 de abril de 2026




A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos