segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

“Não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7)

 




Estamos no tempo litúrgico do Natal, que vai até o dia 11 de janeiro/26: 2º domingo do mês e Festa do Batismo de Jesus. 

Em geral, nas Celebrações do Natal fazemos a memória, ou seja, tornamos presente hoje o nascimento de Jesus, mas não refletimos - salvo poucas exceções - sobre o caminho que Maria grávida e José fizeram antes de Jesus nascer e o lugar onde Ele nasceu.

“Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o Império. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, se completaram os dias para o parto e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro da casa” (Lc 2,1-7).

Jesus nasceu como sem-teto e tudo indica que - ainda no seio de sua mãe Maria e junto com seu pai José - foi morador de rua em Belém.

Os próprios textos litúrgicos e os padres ou ministros que coordenam as Celebrações do tempo do Natal não falam nada sobre a manjedoura do estábulo onde Jesus nasceu e sobre o seu significado para nós hoje. Cito três exemplos: 

Na Missa da Noite de Natal - no Anúncio do Natal - lemos: “Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do eterno Pai, querendo santificar o mundo com o seu misericordioso advento, concebido pelo Espírito Santo, decorridos nove meses após a sua concepção, nasceu em Belém de Judá, da Virgem Maria, feito homem: natividade de nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne”.

Na mesma Missa - na Oração depois da Comunhão - rezamos: “Senhor nosso Deus, ao celebrarmos com alegria o Natal de Nosso Redentor, dai-nos alcançar, por uma vida santa, seu eterno convívio”.

E ainda: na Missa do Dia de Natal - também na Oração depois da Comunhão - rezamos: “Que o Salvador do mundo, hoje nascido, como nos fez nascer para a vida divina, nos conceda também a imortalidade”.

Pergunto: Por que Jesus nasceu na manjedoura de um estábulo? O que Ele quis nos dizer com isso? 

O que significam para nós as palavras: “Não havia lugar para eles dentro de casa”? Em nossa realidade de hoje, há lugar para Jesus nascer dentro de casa? Onde Jesus nasce? Meditemos!

Na Região Metropolitana de Goiânia - por exemplo - com certeza Jesus continua nascendo hoje como sem-teto nas Ocupações: Paulo Freire, Zumbi dos Palmares, Marielle Franco, Terra Prometida, Alto da Boa Vista e Beira da Mata (entre outras), onde nossos irmãos e irmãs lutam pelo direito à moradia digna, que é um direito fundamental de todo ser humano.

É nessas Ocupações e a partir delas que acontece hoje o nascimento de Jesus na vida de todos e todas aqueles e aquelas que querem ser seus seguidores e suas seguidoras.

Na Região onde Jesus nasceu “havia pastores, que passavam a noite nos campos tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: ‘Não tenham medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto lhes servirá de sinal: vocês encontrarão um recém-nascido, envolto em faixas e deitado na manjedoura’. De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: ‘Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados’” (Lc 2, 8-14).

Quando os anjos voltaram para o céu, “os pastores combinaram entre si: ‘Vamos a Belém, ver esse acontecimento que o Senhor nos revelou’. Foram então, às pressas, e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura. Tendo-o visto, contaram o que o anjo lhes anunciara sobre o menino. E todos os que ouviam os pastores, ficaram maravilhados com aquilo que contavam. Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração. Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido, conforme o anjo lhes tinha anunciado” (Lc 2, 15-20).

Os pastores foram os primeiros que receberam a Boa Notícia do nascimento de Jesus. Eles eram os “sem-terra” da época, mal-vistos pelos poderosos, porque ocupavam as grandes propriedades com seus rebanhos de ovelhas. Segundo uma lei daquele tempo, um pastor não podia ser testemunha em Tribunal. Não era considerado uma pessoa idônea.

Pessoalmente, neste Natal, não ouvi nenhum padre ou ministro (certamente houve alguns) que - coordenando a Celebração - falasse claramente sobre o significado para nós hoje do nascimento de Jesus como sem-teto na manjedoura de um estábulo

Ora, é a partir do seu nascimento como sem-teto, que Jesus continua nascendo hoje para todos aqueles e aquelas que querem ser seus seguidores e seguidoras.

Um feliz tempo de Natal e um Ano Novo de muitas vitórias para todos e todas nós que lutamos por um Mundo Novo. À luz da fé, é o Reino de Deus acontecendo na história do Ser humano e da Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum.

Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)   
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282  

Goiânia, 28 de dezembro de 2025





Paróquia Nossa Senhora da Terra - Jardim Curitiba 3 - Goiânia - GO - Natal de 2021

Por representar uma mulher pobre com o menino Jesus pobre,

sumiram com a imagem original de Nossa Senhora da Terra.

Pergunto: será que uma mulher rica dá à luz na manjedoura de um estábulo?

Quanta hipocrisia!



sábado, 20 de dezembro de 2025

“Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23, 2)



A acusação - que levou Jesus de Nazaré, o Salvador do mundo, a ser preso e a morrer na Cruz por amor a todos e todas nós, desde os pobres, marginalizados, oprimidos, excluídos e descartados - foi essa: “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23, 2).

Jesus ressuscitou, está vivo e caminha conosco. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome (por minha causa), eu estou aí no meio deles” (Mt 18, 20). E ainda: “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20).

Hoje, muitos cristãos e cristãs, que - como discípulos missionários e discípulas missionárias de Jesus de Nazaré continuam sua missão no mundo - são chamados e chamadas de “subversivos e subversivas”. Lembremos, por exemplo, os mártires do Brasil e da América Latina, como Pe. Josimo Tavares, Margarida Alves, Dom Oscar Romero e muitos outros.

O pior e o que mais dói é quando essas acusações são da própria Igreja Instituição e daqueles que - pelo ministério que exercem - deveriam ser verdadeiros irmãos e animadores das Comunidades cristãs.

A tomada de posição de Dom Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo, no Brasil, a respeito do Pe. Júlio Lancellotti - é uma grave violação dos Direitos Humanos e um comportamento totalmente antievangélico.

O caso repercutiu negativamente no Brasil, na América Latina e no mundo. É lamentável! Que Igreja é essa! Certamente não é a Igreja que Jesus sonhou e quis!

Faço minhas as palavras dos teólogos Leonardo Boff e Fernado Altemeyer Junior:

“Nos últimos dias, fomos surpreendidos por um fato que nos deixou estarrecidos: o Padre Júlio Lancellotti, o Cura d’Ars dos pobres e de gente de rua, que já há 40 anos cuida com ternura e amorosidade de centenas da população de rua, dando-lhes o pão, o abrigo, a biblioteca, a escola e tantas obras de genuína misericórdia bíblica, foi-lhe imposta, de repente, a proibição de transmitir pela mídia sua Missa dominical. Frequentavam a Missa, bem no sentido tradicional, portanto, livre de qualquer censura canônica, pessoas de sua Paróquia de São Miguel Arcângelo, gente de toda a cidade de São Paulo, gente vinda de todos os Estados da Federação, Missa seguida até no estrangeiro, na América Latina e na Europa. Não só. Foi-lhe vedado o acesso à mídia virtual na qual era frequente com sua presença profética e profunda sabedoria. Irradiava bondade e esperança. Sempre terminava com estas palavras-geradoras: Força! Coragem! Ninguém desanime!”.

(https://www.ihu.unisinos.br/661394-pe-julio-lancelllotti-um-justo-entre-as-nacoes-perseguido-artigo-de-leonardo-boff-e-fernando-altemeyer-jr).

Infelizmente, a posição de Dom Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo, é - ao menos nesse caso - a mesma dos Políticos que defendem uma sociedade estruturalmente injusta, desigual e que - por abominarem a população em situação de rua - perseguem e caluniam o Pe. Júlio Lancellotti.

Pe. Júlio, estamos com você. Apreciamos sua Nota Pública, mas temos consciência do profundo sofrimento seu, dos nossos irmãos e irmãs, moradores em situação de rua e dos pobres em geral. Desejamo-lhes um Natal de muita esperança e um Ano Novo de muitas vitórias.

Por fim, um Feliz Natal e um Feliz Ano Novo aos nossos leitores e leitoras.




Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)   
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282  

Goiânia, 18 de dezembro de 2025












domingo, 7 de dezembro de 2025

O Ser Humano meta-histórico “além da morte” (5)

 


 (Continua o tema do artigo anterior - parte 5)

O Ser humano meta-histórico “já e ainda não” - além de meta-social - é também meta-individual, mas a meta-individualidade não é a totalidade do Ser humano meta-histórico.

A "meta-individualidade" - "meta-corporeidade", "meta-biopsiquicidade" e "meta-espiritualidade" ou "meta-pessoalidade" - é, podemos dizer, "meta-individualidade social", porque o indivíduo influencia e condiciona dialeticamente a sociedade (e vice-versa, como já vimos).

O Ser humano individual, ou seja, em suas relações individuais (interindividuais), é "ontologicamente" voltado para o meta-individual; é, "já e ainda não", meta-individual. A dimensão da meta-individualidade - meta-corporeidade, meta-biopsiquicidade, meta-espiritualidade ou meta-pessoalidade - é constitutiva do Ser humano meta-histórico.

O Ser humano individual - ser corpóreo, biopsíquico e espiritual ou pessoal - meta-individualiza-se, dialética e permanentemente, como “Vida individual” ou “Morte individual”, até à meta-individualização plena (total, absoluta) como “Vida individual plena” ou “Morte individual plena”.

A meta-individualização plena (total, absoluta) como “Vida individual plena” é a afirmação da dimensão individual do Ser humano em sua plenitude: humanização plena (Vida eterna, Páscoa definitiva, plenitude da Ressurreição, plenitude do Reino de Deus, Salvação eterna, Céu, Paraíso).

A meta-individualização plena (total, absoluta) como “Morte individual plena” é a negação de tudo o que foi dito no parágrafo anterior (Anti-Reino de Deus, Perdiçao eterna, Inferno).

Para o Ser humano meta-individual (meta-corpóreo, meta-bio-psíquico, meta-espiritual ou meta-pessoal) unido aos outros (semelhantes), o processo dialético e permanente da meta-individualização - até à meta-individualização plena (total, absoluta) como Vida meta-individual plena ou Morte meta-individual plena - passa pelo reconhecimento dos outros como outros ou não e pela experiência do amor meta-individual (meta-corpóreo, meta-bio-psiquico, meta-espiritual ou meta-pessoal) ou não (desamor meta-individual, egoísmo meta-individual), em todas as suas manifestações (expressões).

Essa experiência é ainda a condição necessária para encontrar (conhecer e vivenciar) o significado fundamental - último e definitivo - da existência humana individual. A experiência do amor meta-individual ou não se dá (acontece) na e pela Práxis meta-individual (voltaremos sobre o assunto, falando da Práxis meta- individual).

No final do tema do Ser humano meta-histórico “já e ainda não” e “além da morte”, sinto a necessidade - baseado em argumentos racionais iluminados pela fé - de levantar alguns questionamentos e de dar-lhes a minha resposta.

Os questionamentos: Se cremos que Deus é Amor (Comunidade de Amor, Santíssima Trindade) e que o Ser humano - criado à imagem e semelhança de Deus - é também Amor, como podemos admitir que irmãos e irmãs nossos se encontrem na “absoluta frustração no ódio” (desamor), ou seja, na Morte plena (Morte eterna, Inferno)? Como podemos ser felizes, aceitando que irmãos e irmãs nossos sejam infelizes, sofrendo para toda a eternidade? Qual é a relação que existe entre a vontade de Deus e a liberdade do Ser humano?

A minha resposta: Reconheço que, ontologicamente falando, a possibilidade meta-histórica da Morte plena (Morte eterna) existe. Creio, porém, que Deus Amor, na sua infinita misericórdia (que é o Amor acontecendo), nunca permitiu (até no caso do traidor Judas Iscariotes), nunca permite e nunca permitirá que essa possibilidade meta-histórica “além-da-morte” se torne uma realidade concreta. Creio ainda que Deus - por ser Amor - no limiar entre o tempo e a eternidade, sempre deu, sempre dá e sempre dará a todos e a todas (inclusive, aos maiores criminosos e criminosas) as condições necessárias para fazerem um ato de Amor totalmente livre e sincero - tão intenso e tão profundo - que leve à conversão e à mudança total de vida (penso também que tenha acontecido o mesmo - embora de maneira diferente - com o chamado “mundo dos anjos”).

Na minha experiência existencial (imagino que isso aconteça com todos os Seres humanos), não conseguiria ser feliz, sabendo que um irmão meu (mesmo que tenha sido o maior criminoso do mundo e mesmo que seja um só) é infeliz para sempre, na Morte eterna. Afinal, é meu irmão ou minha irmã!

“Reconhecemos o Amor que Deus tem por nós e acreditamos nesse Amor. Deus é Amor: quem permanece no Amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4, 16). “Em Deus vivemos, nos movemos e existimos”. “Deus quer que todos os Seres humanos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”. “É Deus que realiza em nós tanto o querer como o fazer, conforme seu desígnio benevolente” (At 17, 28; 1Tm 2, 4; Fl 2, 13 respectivamente. Veja também: CONCÍLIO VATICANO II.  A Igreja no mundo de hoje - GS, 45)

Ora, se é Deus “que realiza em nós tanto o querer como o fazer”, com certeza Ele só pode querer e fazer o bem.

Em atitude de adoração diante da infinita sabedoria de Deus Amor,

faço minha a prece das Laudes (Oração da Manhã)

da segunda-feira da Sexta Semana do Tempo Pascal:

“Pelos méritos da cruz de Cristo, que morreu para libertar o mundo,

dai à humanidade inteira a salvação e a paz”.

(No próximo artigo começaremos a refletir sobre o tema: O Ser Humano como Ser de Práxis)


Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Goiânia, 06 de novembro de 2025





O artigo foi publicado originalmente em:
https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano-meta-historico-alem-da-morte-5/ (16/11/25)

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

O Ser Humano meta-histórico “além da morte” (4)

 


(Continua o tema do artigo anterior sobre o Ser Humano - parte 4)

Em síntese, podemos dizer: historicamente falando, é o Ser humano todo (ser histórico-social e histórico-individual: corpo, vida, espírito ou pessoa) que "morre", isto é, que deixa a modalidade de ser histórica - em via de meta-historicização - e "passa" para a modalidade de ser meta-histórica - em sentido pleno - ou, em linguagem teológica, "ressuscita"; - meta-historicamente falando, é o Ser humano todo que "vive" (é) no Amor (Vida plena) ou no Des-amor (Morte plena).

Tanto historicamente como meta-historicamente (em sentido pleno: “além da morte”), o Ser humano é (existe) pela "presença ontológica" (em linguagem filosófica) ou "presença criadora" (em linguagem teológica) do Absoluto (Deus), que é (existe) por si mesmo. Por isso, a existência (vida) humana - histórica, em via de meta-historicização e meta-histórica, em sentido pleno (“além da morte”) - é "dom" do Absoluto. Do ponto de vista ontológico, se Deus (o Absoluto) não fosse (não existisse), nada e ninguém seria (existiria).

Portanto, reafirmamos que a meta-historicidade “além da morte” (na linguagem comum, usa-se também a palavra "imortalidade", embora seja inadequada) é simultaneamente meta-historicidade social (estrutural) com dimensão individual e meta-historicidade individual com dimensão social.

Não se pode justificar adequadamente a meta-historicidade individual, "se não se faz ver que a comunidade - que vem sendo construída na história - salva-se (realiza-se) quanto ao essencial, não obstante a ruptura da morte” (GEVAERT, J. Il Problema dell'Uomo. Introduzione all'Antropologia filosofica. Elle Di Ci, 19814, p. 277).

“Aprouve a Deus salvar (realizar) e santificar os Seres humanos, não individualmente (somente), excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em Povo (Comunidade) que O conhecesse na verdade e O servisse (amasse) santamente (perfeitamente, radicalmente)” (CONCÍLIO VATICANO II. A Igreja - LG, 9).

“Eu vim para que todos e todas tenham Vida e a tenham em plenitude” (Jo 10,10).

No Ser humano e com o Ser humano, toda a criação participa do processo de meta-historicização até à plenitude. “Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora. E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no íntimo, esperando a adoção, a libertação para o nosso corpo. Na esperança, nós já fomos salvos. Ver o que se espera já não é esperar: como se pode esperar o que já se vê? Mas, se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos" (Rm 8, 22-25).

O cientista (como o Físico, o Biólogo, o Psicólogo ou outro), enquanto tal, não pode provar - pela verificação experimental - e nem afirmar - com conhecimento de causa - que o Ser humano individual é ou não é um ser espiritual ou pessoal.

Esse mesmo cientista (como vimos a respeito da “presença ontológica” ou “presença criadora” de Deus) não pode provar que o Ser humano histórico (social e individual) é ou não é um ser meta-histórico “além da morte” (aberto à transcendência plena, absoluta); que o Ser humano histórico e - com ele - o mundo todo existem (são) ou não existem (não são) pela "presença ontológica" ou "presença criadora" do Outro absoluto (Deus); e que o Outro absoluto (Deus) existe (é) ou não existe (não é) por si mesmo.

Destas questões não temos e nunca teremos "provas científicas". Em outras palavras, estas questões não "cabem" no nível da verificação experimental e, portanto, não podem ser conhecidas "cientificamente"; elas surgem - brotam, emergem, irrompem - da existência humana no mundo com o mundo como um todo e, para buscarmos ter delas uma compreensão sempre mais profunda - mas histórica - precisamos recorrer à inteligência reflexiva (meditativa), ou seja, ao "conhecimento filosófico" e/ou "teológico".

O conhecimento filosófico e/ou teológico parte do conhecimento científico (e, muitas vezes, também do conhecimento comum), incorpora seus dados, vai além dele e volta para ele (motivando e incentivando a pesquisa) num processo contínuo. É este o movimento do conhecimento (pensamento) humano (voltaremos sobre o assunto, falando da Práxis teórico-prática).

Por fim, o processo dialético permanente de meta-historicização “já e ainda não” e “além da morte” se dá na e pela Práxis meta-histórica (voltaremos sobre o assunto, falando da Práxis meta-histórica).

 (No próximo artigo sobre o Ser Humano, continua o mesmo tema: parte 5)


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)   
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282  
 
Goiânia, 06 de novembro de 2025










O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano-meta-historico-alem-da-morte-4/ (23/10/25) 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Opção pelos Pobres - Reflexões teológico-pastorais



É com muita esperança que - no dia 9 de outubro deste ano de 2025 - recebamos, a primeira Exortação Apostólica do Papa Leão XIV: a "Dilexi te" (Eu te amei: Ap. 3,9), datada do dia 4 do mesmo mês, festa de S. Francisco de Assis.

Ela é um chamado à Igreja para que redescubra o Amor para com os Pobres com mensagem central do Evangelho. O documento aprofunda a reflexão sobre a relação entre a Fé cristã e a Opção pelos Pobres, convidando os cristão e cristãs a reconhecerem nele e nelas o rosto de Cristo e lutarem para superar todas as formas de marginalização exploração, opressão, exclusão e descarte.

Dou graças a Deus por tudo que o Papa Francisco fez - com seu testemunho de vida e com seu ensinamentos - pela renovação da Igreja e que o seu sucessor o Papa Leão XIV - com o jeito próprio de sua personalidade - pretende continuar.

Mesmo com tudo isso, a Igreja precisa mudar muito ainda para se tornar uma Igreja de irmãos e irmãs, realmente a evangélica: uma Igreja Pobre, desde os Pobres, com os Pobres, dos Pobres e para os Pobres. Jesus nunca quis uma Igreja Estado, uma Igreja de poder e de luxo.

Um exemplo da vida cotidiana da Igreja: nestes últimos anos - ao menos até 2021 - na Arquidiocese de Goiânia, a procissão do Corpo de Cristo passava nas Avenidas e Ruas centrais da Cidade, levando a Eucaristia num ostensório de ouro maciço e com paramentas luxuosos ao lado de irmãos e irmãs nossos - moradores em situação de rua - dormindo deitados na calçada. Não é contradição! Confesso que, pessoalmente, me sentia muito mal.

Mesmo reconhecendo - por experiência própria - que, nas Comunidades Cristãs Pobres (CEBs), temos muitas pessoas que são verdadeiros santos e santas, infelizmente a Igreja Instituição, em sua história, incorporou as piores contribuições do Imperialismo, do Feudalismo, do Escravismo e do Capitalismo. Ainda na escravidão do século XIX, a Igreja ensina que a virtude do escravo era a submissão e a virtude do dono de escravos era a benevolência. Não é um absurdo? Não é um comportamento totalmente antievangélico? Dá para entender?

Hoje a Igreja - oficialmente - condena os exageros do Capitalismo, mas não condena o Capitalismo como tal: um Sistema estruturalmente desumano, antiético e antievangélico. Com esse pecado estrutural de omissão, a Igreja Instituição acaba sendo conivente com o Sistema Capitalista.

"Para desempenhar sua missão, a Igreja a todo momento (reparem: a todo momento), tem o dever de escutar (perscrutar) os Sinais do Tempos e interpretá-los à luz do Evangelho (ou seja, desde os Pobres, na ótica dos Pobres), de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre os significados da Vida presente e futura e de suas relações mútuas". "É necessário, por consguinte, conhecer e entender (repare: conhecer e entender) o Mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática" (Conc.Vatic. II - GS 4).

Escutar, pois, os Sinais dos Tempos, significa ouvir os apelos de Deus nos acontecimentos, sintonizar com eles e colocá-los em prática, ou seja, vivê-los.

A Igreja, em sua Ação evangelizadora, ou seja, no Anúncio da Boa Notícia do Reino de Deus, deve ser servidora e samaritana, viver a compaixão e a misericórdia - que é o amor acontecendo - e estar sempre do e ao lado dos Pobres.  

A Escuta dos Sinais dos Tempos à luz do Evangelho - se for verdadeira - é escuta desde os Pobres, na ótica dos Pobres e leva necessariamente à Opção pelos Pobres (empobrecidos, marginalizados, oprimidos, explorados, excluídos e descartados), que é uma Opção profundamente profética e libertadora - e não meramente ideológica, embora o ideológico seja uma mediação necessária, pelo fato de o Ser humano ser histórico, situado (no espaço) e datado (no tempo).

Fazemos a Opção pelos Pobres, para - a partir deles e delas e junto com eles e elas - participar do processo de Libertação do Ser humano todo e de todos os Seres humanos no Mundo com o Mundo - a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum - segundo o Projeto de Deus.

Os Direitos Humanos são os Direitos dos Pobres e - sendo dos Pobres - são de todos e de todas.  

O nosso referencial é Jesus de Nazaré e sua prática. Jesus nasceu como sem teto na manjedoura de um estábulo, foi trabalhador carpinteiro com seu pai José. Em sua vida pública, anunciou a Boa Notícia do Reino de Deus aos Pobres, até sua morte na cruz com a acusação de estar subvertendo o povo. Todos e todas somos convidados a entrar nesse caminho. Zaqueu, homem rico, se converteu e entrou. O jovem rico - ao menos no momento do seu encontro com Jesus - não teve coragem e foi embora triste.

Jesus declarou: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos Pobres (reparem: não diz ‘preferencialmente’ aos Pobres); enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). E ainda: “Eu vim para que todos e todas tenham Vida e a tenham em plenitude” (Jo 10,10).

Reafirmo: a Opção pelos Pobres, “não é preferencial”, ou seja, uma alternativa entre duas ou mais alternativas, mas única. Ela nos leva a descobrir o verdadeiro sentido de nossa vida de seres humanos (homens e mulheres, cristãos e cristãs: radicalmente homens e mulheres) no mundo e com o mundo: a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum.

É somente a Opção pelos Pobres que nos faz verdadeiramente felizes. 

Por fim, a Igreja - sendo Pobre, desde os Pobres, para os Pobres, com os Pobres e dos Pobres - ela é de todos e de todas. Que assim seja!

 





Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP), Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282 - https://freimarcos.blogspot.com/
 
Goiânia, 03 de novembro de 2025



sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Vitória histórica dos Trabalhadores e Trabalhadoras

 


Com suas lutas, os trabalhadores e trabalhadoras têm desempenhado - ao longo da história - papel fundamental na construção de sociedades mais justas, igualitárias e democráticas. Toda conquista representa não somente uma vitória particular de uma categoria de trabalhadores e trabalhadoras, mas - também e sobretudo - um passo importantíssimo em direção à valorização do trabalho e ao respeito dos direitos humanos.

Em julho de 2015, dirigindo-se aos participantes dos Movimentos Populares, o Papa Francisco declarou: “Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas mãos de vocês, na capacidade de vocês se organizarem e promoverem alternativas criativas na busca diária dos ‘3 T’ (terra, teto, trabalho), e na participação de vocês como protagonistas nos grandes processos de mudança, regionais, nacionais e mundiais” (2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).

As principais conquistas históricas dos trabalhadores e trabalhadoras são: a Jornada de trabalho regulamentada, o direito ao descanso semanal remunerado, a licença maternidade e paternidade, a garantia de salário-mínimo, a proteção contra demissão arbitrária e o direito à sindicalização. Elas foram alcançadas por meio de negociações, mobilizações sociais, greves e enfrentando resistências e desafios. Cada avanço reforça a importância de manter a luta e o engajamento por direitos e melhores condições de trabalho.

As vitórias dos trabalhadores e trabalhadoras vão além de aumentos salariais e melhorias nas condições de trabalho. Elas envolvem reconhecimento, dignidade, inclusão e oportunidades para todos e todas. É resultado de organização, mobilização e diálogo dos trabalhadores e das trabalhadoras.

Nos últimos anos, o mundo do trabalho passou por grandes transformações: a digitalização, o trabalho remoto, e o surgimento de novas formas de contratação.

Essas mudanças trazem benefícios, mas apresentam também desafios, como a precarização, a informalidade e a necessidade de adaptação das leis trabalhistas.

Os trabalhadores e as trabalhadoras continuam mobilizados, buscando garantir que seus direitos sejam preservados e que novas conquistas sejam alcançadas, levando em conta as demandas específicas de grupos historicamente marginalizados, como mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência e comunidade LGBTQIA+.

Os Sindicatos continuam sendo protagonistas na defesa dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, promovendo negociações coletivas, campanhas de conscientização e apoio jurídico.

Paralelamente, a sociedade civil, por meio de ONGs, Movimentos Sociais Populares e Redes de apoio contribuem para ampliar o alcance dessas conquistas.

Depois de muitas lutas e mobilizações, os trabalhadores e trabalhadoras tiveram mais uma vitória histórica. Pela pressão popular, no dia 1º deste mês de outubro, a Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade (493 votos favoráveis), o Projeto de Lei (PL) 1.087/2025 que isenta de Imposto de Renda (IR) quem ganha até R$ 5 mil (mais de 10 milhões de brasileiros/as) e institui cobrança adicional para pessoas com rendimento acima de R$ 800 mil ao ano (cf. Agência Câmara de Notícias).

Por fim, permito-me uma reflexão, que considero fundamental:

Não podemos esquecer das reais ambiguidades do Projeto Social Capitalista Neoliberal ou Ultraneoliberal. Ele é um Projeto Social (socioeconômico-sociopolítico-socioecológico-sociocultural-socioreligioso) estruturalmente desumano, injusto, antiético e - mais ainda - anticristão. Na Teologia Moral da Libertação, o Projeto Social Capitalista é o “pecado estrutural”.

Nesse Projeto Social, a democracia formal existe para todos e todas (o que não acontece num regime ditatorial), mas a democracia real existe só para a minoria que detém o poder econômico. Exemplo: a moradia é um direito formal para todos/as, mas um direito real somente para a minoria.

Por isso, os trabalhadores e trabalhadoras - com seus aliados e aliadas - nos Sindicatos e nos Movimentos Sociais Populares devem ter sempre duas frentes de luta.

Na primeira (mais imediata), devem lutar - unidos e organizados (mesmo com suas diferenças e divergências) - para conseguir novas vitórias no Projeto Social Capitalista, aproveitando a democracia formal, mas tendo consciência de sua ambiguidade: de um lado, essas vitórias melhoram a vida dos trabalhadores e das trabalhadoras; de outro lado, servem para fortalecer o Projeto Social Capitalista (evitando protestos e greves).

Na segunda frente de luta, os Trabalhadores e Trabalhadoras - com seus aliados e aliadas - devem abrir caminhos novos que levem a superar (ou, derrubar) o Projeto Social Capitalista e a implantar o Projeto Social Popular (comunitário e sem classes ou socialista e comunista no verdadeiro sentido das palavras).  

“A misericórdia (que é o amor acontecendo) sempre será necessária, mas não deve contribuir para criar círculos viciosos que sejam funcionais para um Sistema econômico iníquo. Requer-se que as obras de misericórdia sejam acompanhadas pela busca de verdadeira justiça social, que vá elevando o nível de vida dos cidadãos, promovendo-os como sujeitos de seu próprio desenvolvimento” (Documento de Aparecida - DA 385).

Mesmo no Projeto Social Capitalista - a classe produtora é a dos Trabalhadores/as e não a dos Proprietários/as (como se costuma dizer). Unidos/as e organizados/as continuemos a luta, Jesus de Nazaré está do nosso lado. "Continuem a combater a economia criminosa com a economia popular. Não desistam...” (https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2024-09/papa-movimentos-populares-sao-calisto-justica-social-amor.html).

(Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
08 de outubro de 2025


domingo, 5 de outubro de 2025

O Ser humano meta-histórico “além da morte” (3)

 


(Continua o tema do último artigo sobre o Ser Humano - parte 3)

O Ser humano histórico chega à descoberta da sua dimensão meta-histórica “além da morte” e da necessidade da existência de Deus pelos caminhos existenciais apresentados anteriormente e pela experiência mística (religiosa e/ou de Fé), que apresento agora.

Entre os momentos marcantes da experiência mística, destaco: a radical exigência que o Ser humano histórico tem de transcender toda situação; a clara percepção que seus anseios se dirigem a um Absoluto que precisa ser descoberto; e o encontro de amor interpessoal com o Outro Absoluto, que exige o encontro de amor interpessoal com os outros e as outras (semelhantes).

A verdadeira e autêntica experiência mística (religiosa e/ou de Fé) não leva o Ser humano a fugir da história, social e individual, mas a mergulhar mais profundamente nela para - em seu dinamismo conflitivo - buscar, descobrir e encontrar o Absoluto.

Na experiência de Fé cristã, "Cristo é a Imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda criatura, porque Nele foram criadas (e são criadas) todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis; (...) tudo foi criado (e é criado) por Ele e para Ele. Ele é antes de tudo e tudo Nele subsiste" (Cl 1, 15-17).

Cristo é "o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim" (Ap 22, 13). "O Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas (e são feitas), Ele próprio se encarnou, de tal modo que, como Ser humano perfeito, salvasse todos os Seres humanos e recapitulasse todas as coisas. O Senhor é o fim da história humana, ponto ao qual convergem as aspirações da história e da civilização, centro da humanidade, alegria de todos os corações e plenitude de todos os seus desejos" (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 45).

Para os cristãos e as cristãs toda a história humana no mundo e com o mundo tem, portanto, uma dimensão crística. E é por isso que "o mistério do Ser humano só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. Com efeito, Adão o primeiro Ser humano era figura daquele que haveria de vir, isto é, de Cristo Senhor. Novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor, Cristo manifesta plenamente o Ser humano ao próprio Ser humano e lhe descobre a sua altíssima vocação" (ib. 22).

A partir do Ser humano histórico em sua condição existencial, tiramos a seguinte conclusão:   Cientificamente falando, podemos chegar a negar “determinadas maneiras” de entender a meta-historicidade do Ser humano “além da morte” (formas particulares) e “determinadas maneiras” de entender a existência de Deus (ateismos particulares), mas não podemos afirmar e nem negar a meta-historicidade do Ser humano “além da morte” e a existência de Deus em sentido absoluto (ateismo absoluto). Isso "extrapola" o nível da ciência.

Por exemplo, a respeito da existência de Deus, "fisicamente" falando, podemos negar - pela verifição experimental - a existência de um Deus-Primeira Causa "física" (Primeiro Motor "físico"), "em cima" ou "na frente"; "biologicamente" falando, podemos negar - sempre pela verificação experimental - a existência de um Deus-Primeira Causa "biológica" (Primeiro Motor "biológico"), "em cima" ou "na frente"; "sociologicamente" falando, podemos negar - pela verificação experimental e análise dos fatos - a existência de um Deus-Primeira Causa "social" (da sociedade), "em cima" ou "na frente".

Este Deus-Primeira Causa "social" é apresentado também como a Primeira Causa "legitimadora" da "ordem" - que, muitas vezes, é uma "desordem estrutural" ("estabelecida", "institucionalizada") - e torna-se, assim, um Deus-Fetiche (Ver o pensamento de K. MARX sobre o fetichismo e o pensamento de E. DUSSEL sobre a religião fetichista).

Determinadas formas de "ateismo" moderno têm, portanto, um caráter "libertador". Negam as concepções de Deus baseadas numa visão "pré-científica" do mundo e afirmam a "autonomia" do Ser humano histórico como ser de Práxis. Não negam, porém, a meta-historicidade do Ser humano “além da morte” e a existência de Deus em sentido absoluto.

(No próximo artigo sobre o Ser Humano, continua o mesmo tema: parte 4)


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
 
Goiânia, 03 de setembro de 2025




O artigo foi publicado originalmente em: 

https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano-meta-historico-alem-da-morte-3/ (22/09/25)



A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos