quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Ser Humano como Ser de Práxis (1)

 


A Práxis é a categoria que ocupa o lugar central - é o eixo - da Ética (ou, Antropologia ética) filosófico-teológica da Libertação.

A Práxis é o Ser humano - ser pluri-dimensional e pluri-relacional - "sendo", "vindo-a-ser" ("se fazendo", "acontecendo"); ela é o Ser humano "sendo conscientemente", ou seja, "sendo se relacionando" e - ao mesmo tempo - "se relacionando sendo". No "ser se relacionando", a ênfase é colocada no Ser humano como ser pluri-dimensional; no "se relacionar sendo", a ênfase é colocada no Ser humano como ser pluri-relacional.

Em outras palavras, a Práxis é o modo do Ser humano ser-no-mundo-com-o-mundo (a irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum) conscientemente.

Portanto, a Práxis "não é um modo, mas o modo de ser-no-mundo" do Ser humano; ela é "o modo intramundano que reúne todo o ser do Ser humano"; "o modo essencial de ser atualmente como Ser humano em seu mundo"; "o modo do Ser humano existir; "o modo pelo qual o Ser humano se lança no mundo e se transcede nele" ("o modo de sua transcendência").

A Práxis "é atualidade no mundo". A Práxis, "como atualidade no mundo, é a mobilidade mesma do Ser humano, é seu ser em ato, é simplesmente estar-sendo Ser humano. Esse estar-sendo é sempre de alguma maneira, e neste sentido mesmo o pensar é um modo de Práxis. E o fato de ter algo diante dos olhos como um ser pensado é um modo de ser atualmente no mundo (...); é um modo de Práxis (...)" (DUSSEL, E. Por uma Ética da Libertação latino-americana: I- Acesso ao ponto de partida da Ética. Loyola - Unimep, São Paulo - Piracicaba, 1982, p. 42, 88-90).

Sendo a mobilidade mesma do Ser humano seu ser em ato, a Práxis é "a 'totalidade estruturada das ações humanas' (...). Neste sentido a teoria surge. A Práxis segunda ou mera ação decidida é posterior ao ato teórico e se integra como um momento na totalidade da Práxis a priori" (DUSSEL, E. Filosofia da Libertação. Loyola - Unimep, São Paulo - Piracicaba, 1980, p. 240, nota 5).

Em suma, “a Práxis é a Vida do Ser humano na totalidade de suas determinações reais". “Ela não é atividade prática contraposta à teoria; é determinação da existência humana como elaboração da realidade" (CHATELET, F. Logos e Práxis. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1972, p. 215).

A Práxis,"sendo o modo específico de ser do Ser humano, com ele se articula de modo essencial, em todas as suas manifestações; e não determina apenas alguns de seus aspectos ou características. A Práxis se articula com todo o Ser humano e o determina na sua totalidade". Em poucas palavras, a Práxis "é a esfera do humano" (KOSIK, K. Dialética do Concreto. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1976², p. 202).

Pela Praxis, o Ser humano não só atua (age conhecendo e/ou conhece agindo), mas também tem consciência (sabe) que atua.

Enfim, o Ser humano "é real, efetiva e atualmente, quando existe, quando está em seu mundo presente pela Práxis". Por isso, "a morte indica a impossibilidade da Práxis, o radical não poder mais ser-no-mundo" (DUSSEL, E. Por uma Ética da Libertação latino-americana: I- Acesso ao ponto de partida da Ética, p. 90).

Ora, se a Práxis é atividade especificamente humana ou atividade consciente, podemos dizer que "toda Práxis é atividade, mas nem toda atividade é Práxis" (VÁSQUEZ, A. Sánchez. Filosofia da Práxis. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977², p. 185).

Em geral, por atividade entende-se aquela atividade (ou conjunto de atividades) em virtude da qual um agente (sujeito ativo) atua sobre uma determinada matéria-prima, para conservá-la ou transformá-la (modificá-la). Não especifica ainda de que tipo de atuação se trata, qual é a natureza da matéria-prima, nem qual é o resultado (o produto) desta atividade.

Assim entendida, "atividade opõe-se a passividade, e seu âmbito é o da efetividade e não o do meramente possível. O agente é o que age, o que atua, e não o que apenas tem possibilidade ou está em disponibilidade para atuar ou agir. Sua atividade não é potencial, mas sim atual" (Ib., p.186).

(Para uma visão histórica do conceito de "Práxis", cf. KONDER, L. O futuro da Filosofia da Práxis. O Pensamento de Marx no século XXI. Paz e Terra, São Paulo, 1992, p. 97-128. Cf. também PETROVIC, G. "Práxis". Em: BOTTOMORE, T. (Org.). Dicionário do Pensamento Marxista. Zahar, Rio de Janeiro, 1988, p. 292-296. E ainda GOZZI, G. "Práxis". Em: BOBBIO, N., MATTEUCCI, N. e PASQUINO, G. (Orgs.). Dicionário de Política. UNB, 1991, p. 987-992).

(Continua no próximo artigo sobre o mesmo tema)


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 21 de janeiro de 2026





O artigo foi publicado originalmente em:
https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano-como-ser-de-praxis-1/  (19/01/26)

domingo, 11 de janeiro de 2026

O Capitalismo: o mal estrutural mundial

 


                                                                                                     Invasão militar da Venezuela

pelos Estados Unidos

Hoje, o Capitalismo é o mal estrutural mundial, ou - em linguagem teológica - o pecado estrutural mundial, legalizado e institucionalizado.

A invasão militar da Venezuela pelos Estados Unidos e seu presidente Donald Trump - ocorrida no início de janeiro deste ano de 2026 - condenada pela ONU e pela Comunidade Internacional - é atualmente a prova mais evidente dessa realidade iníqua, perversa e diabólica, que é o Capitalismo (ou “Capetalismo”).

Pergunto: Quem elegeu Donald Trump presidente do mundo? Com que direito invadiu militarmente a Venezuela, desrespeitando gravemente o povo de outro país e matando vítimas Inocentes?

Na invasão da Venezuela, os principais direitos gravemente desrespeitados - além de outros - são:

Violação da Soberania Nacional: A ação militar direta dos EUA no território venezuelano, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, desrespeita o princípio fundamental da soberania dos Estados, consagrado na Carta das Nações Unidas.

Proibição do Uso da Força: O direito internacional proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, exceto em casos de legítima defesa ou com mandato da ONU. Especialistas foram unânimes em apontar a ilegalidade (e - acrescento - a imoralidade) da ação.

Violação de Direitos Humanos Fundamentais: O ataque resultou em mortes (ao menos 40 pessoas, segundo relatos iniciais) e muitos atos de violência contra o direito à vida de civis e militares envolvidos.

Desrespeito ao Devido Processo Legal: A operação, que incluiu a captura do presidente Nicolás Maduro para ser julgado nos EUA, foi considerada um ‘sequestro’ e uma clara violação das normas internacionais de extradição e do devido processo legal”. 

(https://www.google.com/search?sca_esv=7670df6d756a93b6&rlz=1C1CHZN_pt-BRBR1086BR1086&q=Lista+dos+direitos+violados+na+inva%C3%A7%C3%A3o+da+Venezuela..)  

Além de muitas outras Organizações civis e religiosas, a Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) e o Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM) condenaram (em nome da Igreja da Venezuela e de toda a América Latina) a agressão militar externa e rejeitaram qualquer intervenção estrangeira na Venezuela, defendendo a soberania do país e a busca por soluções pacíficas.

A Conferência Episcopal Venezuelana (CEV):

Rechaçou veementemente as ações militares dos EUA que resultaram na captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores  e pediu o fim da Violência.

Convidou o povo venezuelano a manter a serenidade, a sabedoria e a fortaleza diante dos acontecimentos recentes e a perseverar na oração pela unidade nacional.

Expressou solidariedade às vítimas da violência, aos feridos e aos familiares dos falecidos e falecidas.

Defendeu a Soberania e a enfatizou que a situação deve ser resolvida internamente, sem ingerências externas, garantindo a soberania do país.

Manifestou proximidade e solidariedade ao povo venezuelano em meio à angústia e ansiedade provocadas pela crise política e social.

O Conselho Episcopal Latino-americano e Caribenho (CELAM):

Divulgou uma Nota, condenando a agressão militar, rejeitando a violência, a intervenção externa e defendendo o diálogo e a negociação, no respeito à vontade do povo venezuelano. A nota sublinha que  "o bem do povo deve estar sempre acima de qualquer outra consideração".

Em nome de toda a Igreja Cristã Católica o Papa Leão XIV afirmou: "O bem-estar do amado povo venezuelano deve prevalecer sobre todas as outras considerações e levar à superação da violência e ao início de caminhos de justiça e paz, garantindo a soberania do país".(domingo, 04 de janeiro/26).

O CELAM, a CEV e o Papa concordam que o bem-estar do povo venezuelano deve prevalecer sobre quaisquer outras considerações políticas ou militares e que crise deve ser resolvida através de caminhos de justiça, paz e diálogo e em conformidade com o direito internacional

(Cf.https://www.google.com/search?q=A+posi%C3%A7ao+do+Celam+e+da+Igreja+venezuelana+sobre+a+invas%C3%A3o&rlz=1C1CHZN_pt-....).

Por fim, fiquei contente de ver a Igreja à qual pertenço - que é santa  (graça estrutural da instituição e graças pessoais dos critãos/ãs) e - ao mesmo tempo - pecadora (pecado estrutural da Instituição e pecados pessoais dos critãos/ãs) - se posicionar pública e profeticamente contra a invasão da Venezuela. 

Os cristãos e cristãs precisamos lutar muito para sermos de verdade e sempre:

uma Igreja Comunidade de irmãos e irmãs que - na pluralidade dos ministérios (serviços e diversidade dos carismas (dons) - têm a mesma dignidade e o mesmo valor;

uma Igreja realmente evangélica, profética, pobre e dos pobres;

uma Igreja que - sendo dos pobres - é de todos aqueles e aquelas que querem seguir o caminho de Jesus e das primeiras Comunidades cristãs, hoje.

Nunca é demais lembrar: se queremos ser cristãos e cristãs de verdade, precisamos ser radicalmente seres humanos. O verdadeiro cristianismo é um humanismo natural e um naturalismo humano radicais.

Unidos e unidas na luta por um outro muno possível: um Mundo Novo, sempre mais Novo.

Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, 
Foram presos ilegalmente por forças especiais do EUA.
 Imagem de arquivo (Foto: Prensa Presidencial).

Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia Flores,
foram presos ilegalmente por forças especiais do EUA.
Imagem de arquivo (Foto. Prensa Presidencial).




Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)   
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282  

Goiânia, 07 de janeiro de 2026
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos