sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Eldorado Parque: memória permanente da barbárie

“Ai daquele que constrói uma cidade com sangue, e funda uma capital na injustiça!” (Hab 2,12) “Novas ‘cidades’ na Grande Goiânia”. No dia 5 de fevereiro deste ano foi noticiado: “A Grande Goiânia vai receber, ainda este ano, seis grandes empreendimentos imobiliários, a maioria voltada para classe média com preços a partir de R$ 150 mil, que vão movimentar a economia com mais de R$ 3 bilhões”. A reportagem continua dizendo: “Serão mais de 20 mil novas unidades habitacionais, entre apartamentos e casas, que abrigarão cerca de 80 mil moradores. Os empreendimentos vão ocupar os vazios urbanos do Parque Oeste Industrial, Goiânia 2, antiga Fazenda Gameleira, Goiânia Golf Clube, Jardim Cerrado e também bairro Monserrat, em Aparecida de Goiânia” (O Popular, 05/02/12, p. 3). Infelizmente, na “estrutura econômica atual que está exclusivamente a serviço do mercado total, apátrida, homicida de pessoas e genocida de povos” (Pedro Casaldáliga. A outra economia. Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2013, p. 10), os critérios que norteiam esses empreendimentos (na sua aprovação pelo Poder Público e na sua execução pelos empresários do setor) não são certamente os do Bem Viver, do Bem Conviver e do respeito ao direito de moradia dos pobres, mas os da ganância, da especulação imobiliária e do maior lucro possível, custe o que custar. Nessa lógica capitalista neoliberal - estruturalmente iníqua - de exploração dos trabalhadores, imaginemos qual não será o lucro dos empresários do mercado imobiliário. Nos empreendimentos imobiliários, não há nenhuma preocupação com os impactos negativos que eles geram na cidade - como, por exemplo, no trânsito - em função do adensamento populacional em poucas áreas. Segundo especialistas na área, “a expansão acelerada de condomínios residenciais em Goiânia e Aparecida de Goiânia deve sufocar ainda mais a mobilidade nas duas cidades, sobretudo por serem construídos sem um prévio estudo de impacto de trânsito”. No início de fevereiro deste ano, Miguel Tiago, então presidente da Agência Municipal de Trânsito (AMT), afirmou: “A AMT precisa ser ouvida, principalmente antes da construção de grandes empreendimentos, mas isso não está sendo feito” (O Popular, Ib.). Alem dessas considerações e reflexões - de caráter humano e ético - que valem para todo empreendimento imobiliário, no caso do Eldorado Parque tornam-se necessárias outras considerações e reflexões. Em primeiro lugar, afirmo: o Eldorado Parque - se for realmente concretizado - será a memória permanente da maior barbárie praticada em toda a história de Goiânia, em fevereiro de 2005, pelo Poder Público Estadual, com a anuência do Poder Público Municipal e do Judiciário, e com o consentimento, declarado ou silencioso, das “pessoas de bem”, que são os fariseus de hoje. A barbárie da Operação de despejo de quase 14 mil pessoas, em menos de duas horas, cinicamente chamada “Operação Triunfo” (depois da “Operação Inquietação”, que durou 10 dias) foi de um requinte de crueldade tal, que pode ser considerada uma verdadeira operação de guerra nazista. Mesmo que os detentores do poder econômico e do poder político (covardemente submisso aos interesses do poder econômico) queiram esconder essa barbárie debaixo do tapete, ela nunca será esquecida. A área da Ocupação “Sonho Real”, no Parque Oeste Industrial, tornou-se uma “terra santa” encharcada de sangue inocente. Para reparar - ao menos parcialmente - a injustiça cometida, essa “terra santa” deveria ser declarada de utilidade pública, desapropriada por interesse social e transformada numa área verde bem cuidada, denominada Parque dos Trabalhadores, com a construção do Memorial da Luta pela Moradia, como advertência permanente a todos os gananciosos e opressores do povo. Na ótica dos “coronéis urbanos” de Goiânia (os donos das grandes imobiliárias), aquela área era “subutilizada”. Que descaramento! Para esses coronéis do capitalismo neoliberal, os pobres não contam, são material descartável e devem ser encurralados nas beiradas mais distantes da cidade, para não torná-la feia. À época da “Operação Triunfo”, num documento da Agência Goiana de Habitação S/A (AGEHAB), estava escrito, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que aquela área era “imprópria” para habitação popular. Que desrespeito para com o povo! Segundo a imprensa noticiou, “o empreendimento será construído pelo consórcio de empresas composto pela Brasil Brokers Tropical Imóveis, Construtora Moreira Ortence, Engel Engenharia e Dinâmica Engenharia”. Na área da Ocupação “Sonho Real” do Parque Oeste Industrial serão erguidas - dizem - 50 torres de edifícios residenciais, com 17 pavimentos cada. “Os empresários - afirma a imprensa - adquiriram o terreno da antiga proprietária, a dona de casa Anália Severina Ferreira e seus três filhos, Antônio Severino de Aguiar, Dalva Severina de Aguiar e Neuza Severina de Aguiar. O valor do negócio não foi divulgado, mas a avaliação de mercado feita nas vésperas do conflito era de R$ 38 milhões” (Ib.). Tenho certeza que esse dinheiro e esse empreendimento imobiliário (com lançamento previsto para outubro deste ano) serão amaldiçoados por Deus. Pergunto: alguém gostaria de morar num empreendimento imobiliário amaldiçoado por Deus? A justiça dos homens pode falhar, mas a justiça de Deus, mesmo que tarde, nunca falha. Os responsáveis - diretos ou indiretos - da barbárie do Parque Oeste Industrial, praticada há mais de sete anos e que ainda continua impune, aguardem! Aos/às que defendem e promovem a justiça e os direitos humanos - principalmente o direito à moradia digna para todos/as - faço um apelo: protestem e boicotem a compra dos apartamentos do Eldorado Parque. Ninguém poderá ser feliz, sabendo que o empreendimento imobiliário é fruto de um passado iníquo. “Ai daquele que constrói a sua casa sem justiça e seus aposentos sem direito” (Jr 22,13). “Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo, até que não sobre mais espaços e sejam os únicos a habitarem no meio do país” (Is 5,8). E ainda: “Parem de trazer ofertas inúteis. O incenso é coisa nojenta para mim. (...) Não suporto injustiça e solenidade. (...) Eu detesto suas festas. Para mim se tornaram um peso que eu não suporto mais. Quando vocês erguem para mim as mãos, eu desvio o meu olhar; ainda que multipliquem as orações, eu não escutarei. As mãos de vocês estão cheias de sangue” (Is 1,13-15). Como podemos ver, Deus toma o partido dos injustiçados, se faz solidário com eles e diz que tem nojo de atos religiosos, que visam legitimar um comportamento injusto e hipócrita. Jesus de Nazaré, nas maldições, retoma o ensinamento dos Profetas e denuncia: “Ai de vocês, os ricos, porque já têm a sua consolação! Ai de vocês, que agora têm fartura, porque vão passar fome! Ai de vocês, que agora riem, porque vão ficar aflitos e irão chorar! Ai de vocês, se todos os elogiam, porque era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas” (Lc 6,20-26). Esses textos da Palavra de Deus - que são uma advertência aos gananciosos e opressores dos pobres - nos fortalecem e nos ajudam a continuar a luta por uma outra economia, por uma outra política, por uma outra sociedade e por um outro mundo. Participe! Assine o Abaixo-assinado “Federalização já!” e, antes, leia o artigo “Sete anos do ‘Sonho Real’: até quando a impunidade?”, que serve de fundamentação ao Abaixo-assinado (http://peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2012N21783). http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120919&p=24 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=70559 http://minutonoticias.com.br/eldorado-parque-memoria-permanente-da-barbarie http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=7636:social190912&catid=71:social&Itemid=180 http://www.brasildefato.com.br/node/10653 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A outra economia Lançamento do Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2013

O Livro-Agenda Latino-americana-Mundial - desde a sua 1ª edição em 1992 - é “sinal de comunhão continental e mundial entre as pessoas e comunidades que vibram e se comprometem com as Grandes Causas da Pátria Grande, como resposta aos desafios da Pátria Maior. Um anuário da esperança dos pobres do mundo, a partir da perspectiva latino-americana” (Livro-Agenda 2013, p. 3). O Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2013 aborda o tema da “outra economia”, para ir criando a “outra mundialidade”. O Livro-Agenda 2012 nos perguntava “que humanidade queremos e podemos ser, que vida podemos e queremos viver, que convivência almejamos”. O Livro-Agenda 2013 “aterrissa no campo de batalha da economia, onde se decidem a vontade e a possibilidade de viver e conviver toda a Humanidade com verdadeira dignidade humana”. Quando falamos da “outra economia” não falamos simplesmente de reformas econômicas, mas de uma economia “radicalmente alternativa” à capitalista neoliberal. A “outra economia” que sonhamos “não pode ser somente econômica. Há de ser integral, ecológica, intercultural, a serviço do Bem-Viver e do Bem-Conviver, na construção da plenitude humana, desmontando a estrutura econômica atual que está exclusivamente a serviço do mercado total, apátrida, homicida de pessoas, genocida de povos. Sonhamos com uma mudança sistêmica que atenda às necessidades e aspirações de toda a Família Humana reunida na casa comum (oikós). ‘Oikós-nomia’ é ‘a administração da casa’ que tem como lei a fraternidade/sororidade”. À luz da fé, a “outra economia” é “uma verdadeira espiritualidade: de compaixão solidária com todos os caídos à beira do caminho; de indignação profética frente a todos os ídolos da mentira e da morte; de convivência amorosa com todos os seres”. Trata-se - em linguagem bíblico-teológica - da economia do Reino, que é “obsessão de Jesus de Nazaré, revolução total das estruturas pessoais e sociais, utopia necessária, obrigatória, porque é a proposta do próprio Deus da Vida, Pai-Mãe da Família Humana” (Pedro Casaldáliga. Livro-Agenda 2013. A outra economia, p. 10-11). Por ocasião do lançamento do Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2013 em Goiânia, será outorgado, pela PUC-GO, o título de Doutor Honoris Causa a Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de S. Felix do Araguaia e um dos grandes profetas do nosso tempo. Será feita também uma homenagem especial ao Pe. Francisco Cavazzuti pelos 25 anos do atentado que sofreu em 27 de agosto de 1987 e que o deixou totalmente cego. Juntos/as celebraremos, ainda, a nossa gratidão a tantos/as irmãos/ãs, companheiros/as de caminhada, que dedicaram e dedicam suas vidas à causa dos/as excluídos/as em nossas comunidades e movimentos populares, como é o caso de Dom José Rodrigues de Souza (bispo emérito de Juazeiro - BA), cuja Páscoa definitiva aconteceu nesse último domingo. Faremos, enfim, a memória das Vítimas do acidente do Césio 137, que completará 25 anos nesse dia do lançamento. Aos fariseus, que disseram a Jesus: “Mestre, manda que teus discípulos se calem”, Jesus respondeu: “Eu digo a vocês: se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19,39-40). Estas palavras inspiraram o canto ‘Pão da igualdade’: “Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão. Se fecharem uns poucos caminhos, mil trilhas nascerão”… (Ir. Vaz Castilho). Até o final do ano, o lançamento do Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2013 acontecerá em diversas cidades do Brasil. Em Goiânia, será no dia 13 deste mês de setembro, às 19:30h, no Centro Cultural Cara Vídeo (Rua 83, N° 361, Setor Sul, Goiânia - GO). Venha participar! Ficaremos muito felizes com a sua presença. Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 12/09/12, p. 07 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120912&p=23 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=70320 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Grito dos/as Excluídos/as 2012

“Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda população!” A Cáritas Brasileira define muito bem o que é o Grito dos/as Excluídos/as. Diz: “O Grito dos/as Excluídos/as é uma manifestação popular carregada de simbolismo. È um espaço de animação e profecia, sempre aberto e plural de pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas dos/as Excluídos/as. O Grito dos/as Excluídos/as, como indica a própria expressão, constitui-se numa mobilização com três sentidos: > denunciar o modelo político e econômico que, ao mesmo tempo, concentra riqueza e renda e condena milhões de pessoas à exclusão social; > tornar público, nas ruas e praças, o rosto desfigurado dos grupos excluídos, vítimas do desemprego, da miséria e da fome; > propor caminhos alternativos ao modelo econômico neoliberal, de forma a desenvolver uma política de inclusão social, com a participação ampla de todos os cidadãos”. Afirma ainda: “Não é um movimento nem uma campanha, mas um espaço de participação livre e popular, em que os próprios excluídos, junto com os movimentos e entidades que os defendem, trazem à luz o protesto oculto nos esconderijos da sociedade e, ao mesmo tempo, o anseio por mudanças” (http://caritas.org.br/novo/gritos-dosas-excluidosas-2012/). Em 2012 o Grito dos(as) Excluídos(as) traz como tema: “Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda população!”. O pano de fundo de todos os Gritos é sempre: “A Vida em primeiro lugar”. Lideranças dos movimentos sociais populares realizaram em São Paulo no dia 30 de agosto/12, às 14:30h, entrevista coletiva para o lançamento da 18ª edição do Grito dos/as Excluídos/as. Participou também da coletiva o presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz da CNBB (promotora do evento, juntamente com outras entidades), dom Guilherme Werlang, que convocou a população a acompanhar as manifestações programadas. Entre as lideranças presentes estava Iury Paulino, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens. A coletiva aconteceu na sede do Regional Sul 1 da CNBB, na capital paulista. Dom Guilherme disse que os movimentos sociais populares exigem mudanças profundas. “O Estado - disse - faz pequenas concessões, mas não muda sua estrutura”. Reconheceu que, a partir dos últimos governos federais, o Estado brasileiro tornou-se “menos surdo” aos gritos dos grupos sociais considerados excluídos. “Tivemos avanços, sim, mas seu modelo, sua essência, continua servindo aos interesses do capital internacional”. E ainda: “O Estado é uma empresa particular. Ele tem um entendimento sobre desenvolvimento complicado, que favorece a poucos e afeta populações injustamente. Daremos, neste ano, um grito contra a gentrificação que ele vem promovendo”. (Gentrificação é o processo urbanístico pelo qual se busca “enobrecer” bairros e cidades ao substituir moradores pobres por novos imóveis e empreendimentos para os que têm maior poder aquisitivo). Iury Paulino abordou a questão da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, na bacia do Rio Xingú, no Pará e disse que a estratégia energética do país não busca atender a toda a população. “Belo Monte nada mais é do que a evidência de que a estratégia política de energia é feita para atender as grandes construtoras, mineradoras e empresas internacionais”. Segundo ele, a energia que vai ser produzida atenderá mais à iniciativa privada, do que a população. “O problema não é a barragem, mas a quem ela servirá. As pessoas não entendem que as cidades próximas às barragens não usufruem da energia produzida por elas”. Para Yuri, o empreendimento de Belo Monte não levou desenvolvimento às cidades afetadas por ele, mas sim problemas urbanos, com uma concentração demográfica impossível de ser atendida pelos serviços públicos que elas ofereciam. Questionou: “Não entendo quando dizem que com Belo Monte, a região passará a ter escolas e um serviço eficaz de saúde. O que uma coisa tem a ver com a outra? Por que precisa de barragem pra ter escola?”. A obra é alvo de protestos de indígenas, grupos socioambientais e do Ministério Público paraense, por conta dos impactos negativos que já causa e ainda causará na região. As entidades que promovem o Grito dos/as Excluídos/as são contra o projeto, porque acarreta desalojamentos forçados e mais injustiças no campo e na cidade. O Grito dos/as Excluídos/as abordará também, em todo país, a questão da moradia. Ari Alberti, da Coordenação do Grito, afirmou: “O Estado tem a obrigação de fornecer moradia digna, mas não o faz”. Outro grito deste ano será a denúncia da violência institucional cometida contra a juventude, em particular a juventude pobre. Ettore Meireles, integrante da Pastoral da Juventude de São Paulo, afirmou: “A violência (contra essa parcela da população) cresceu 400% nos últimos dois anos. Homossexuais e negros estão sendo exterminados. A polícia trata como criminosos os jovens, que, muitas vezes, procuram o lazer nos espaços públicos, como as praças, pois é só isso que lhes resta”. O que acontece em São Paulo, acontece também em todas as grandes cidades do Brasil, como Goiânia. Farão parte ainda das pautas das manifestações os problemas da fome e da falta de saneamento básico generalizado. “Embora o Brasil seja a sexta economia do mundo, é um dos países mais desiguais. Gritaremos contra isso”. De 1° a 7 de setembro serão promovidas em todo Brasil as mais variadas atividades: atos públicos, romarias, celebrações especiais, seminários, cursos de reflexão, blocos na rua, caminhadas, teatro, música, dança, feiras de economia solidária e acampamentos (Cf. http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania/2012/09/grito-dos-excluidos-protesta-contra-imobilidade-social-do-estado-diz-cnbb). No dia 7, data em que se celebra a independência do Brasil, tradicionalmente o Grito dos/as Excluídos/as organiza grandes passeatas em diversas cidades do Brasil. Em Goiânia a concentração para a passeata do Grito (organizada pelo Fórum do Grito dos/as Excluídos/as e pelo Fórum dos Movimentos Populares de Goiás) será na Assembleia Legislativa de Goiás, às 8:00h. Daremos um destaque especial aos gritos por saúde e educação pública de qualidade para todos/as, por moradia digna, por reforma agrária e pelo fim da criminalização da pobreza e dos movimentos populares. Participe! Sua presença e muito importante! “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 05/09/12, p. 05 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120905&p=21 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=70204 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano

O julgamento do "mensalão" no STF

O chamado “mensalão” é o esquema de compra de votos (de apoio político) de parlamentares com dinheiro público e de lavagem de dinheiro, que é considerado o maior escândalo do governo Lula, em 2005/2006. Na acusação dos réus do mensalão no STF, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse que o esquema funcionava "entre quatro paredes" do palácio presidencial e pediu a prisão imediata de eventuais condenados. "Quando falo de quatro paredes, falo das paredes da Casa Civil, de algo que transcorria dentro do palácio da Presidência da República". O chefe do Ministério Público Federal disse ter sofrido intimidações e "ataques grosseiros" após entregar suas alegações finais. "Houve tentativa de constrangimento e intimidação do procurador-geral da República, o que jamais havia ocorrido, o que mostra que nós temos uma quadrilha extremamente arrogante." Gurgel pediu aos ministros do STF que a corte estabeleça um "paradigma histórico". "(Peço) desde já a expedição dos mandatos de prisão cabíveis imediatamente após a realização do julgamento". Gurgel considerou "risível" o discurso de que o mensalão não passou de um "delírio". "Jamais um delírio foi tão solidamente (...) documentado e provado". E repetiu que trata-se do mais "atrevido" e "escandaloso" esquema de corrupção do Brasil. O procurador-geral apontou o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu como o mentor da quadrilha. Dedicou 25 minutos das quase 5 horas de discurso a Dirceu, e disse que "a prova é contundente contra o ex-ministro. Procurou também justificar a ausência de provas documentais da ação de Dirceu, alegada pela defesa. "O autor intelectual, quase sempre, não fala ao telefone, não envia mensagens eletrônicas, não assina documentos, não movimenta dinheiro por suas contas, agindo por intermédio de `laranjas'. A prova da autoria do crime não é extraída de documentos ou de perícias, mas essencialmente da prova testemunhal". Gurgel deu uma ênfase especial aos repasses de dinheiro a deputados em épocas de votações importantes no Congresso, como as reformas tributária e previdenciária, ocorridas entre setembro e dezembro de 2003. Dos 38 réus, o procurador-geral pediu a absolvição por falta de provas do ex-ministro Luiz Gushiken e do assessor partidário Antônio Lamas (Cf. Felipe Seligman, Flávio Ferreira, Márcio Falcão e Rubens Valente. Mensalão - o julgamento. Folha de S. Paulo, 04/08/12, p. A4). E ainda: o ex-procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza, responsável pela denúncia do mensalão no STF, afirma que, tanto na denúncia quanto nas alegações finais do Ministério Público, existem evidências "certas e determinadas" da compra de apoio político. "Não há dúvida nenhuma quanto a isso". O Ministério Público Federal considera o mensalão o mais "atrevido" escândalo de corrupção do país e apresenta as provas sobre a existência de uma "sofisticada quadrilha". Souza rejeita a tese de que houve caixa dois. "A convicção do Ministério Público é que não foi caixa dois". "Toda aquela movimentação financeira, pagamentos na calada da noite, às escondidas, em dinheiro vivo, à margem do sistema bancário, revela algo ilícito que não poderia ser à luz do dia". Souza afirma que o Ministério Público foi justo na acusação e cauteloso em todo o processo (Cf. Márcio Falcão. Mensalão - o julgamento. Folha de S. Paulo, 10/08/12, p. A4). Os advogados de defesa dos réus tentam desqualificar o mensalão. Alguns, como Márcio Thomaz Bastos (que foi chamado o “deus” dos criminalistas) e outros, são crimininalistas famosos e de muita experiência. Recebem honorários astronômicos e não se importam se o dinheiro tem origem em práticas de corrupção ou não. Com oportunismo descarado, sem nenhuma preocupação com a verdade e com a ética, usam todos os artifícios jurídicos possíveis para conseguir absolver seus clientes, mesmo sabendo que são culpados. Por razões venais jogam, sem nenhum escrúpolo, sua dignidade humana no lixo. Trata-se realmente de uma prática repugnante. É verdade que todo ser humano, mesmo o maior criminoso, tem direito à defesa, mas sempre dentro de critérios baseados na justiça. "Não podemos ser justos se não formos humanos" (Vauvenarques, Luc de Clapiers). No dia 18 de maio do corrente ano, escrevi um artigo com o título: O caso do mensalão: até quando ficará impune? (Veja nos sites: http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120518&p=23; http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=67048 e outros) Para manter a impunidade usam-se diversas artimanhas. Cito só algumas, amplamente divulgadas na imprensa: - A artimanha de gerar incertezas e dúvidas sobre a existência do mensalão, dizendo que se trata de um “delírio” e que o mensalão não existiu; - A artimanha de retardar a ação judicial com recursos processuais, para que o julgamento não acabe antes das eleições municipais de 7 de outubro, evitando, assim, o desgaste e o dano que eventuais condenações poderiam causar nos partidos políticos envolvidos; - A artimanha de caracterizar a distribuição de dinheiro do mensalão como mera caixa dois, uma infração menor do ponto de vista legal; - A artimanha de usar todos os meios para não perder os clientes endinheirados; - A artimanha de querer salvar a qualquer custo a imagem dos partidos políticos envolvidos no mensalão, decorrente do julgamento (“quem não deve, não teme”); - A artimanha de acompanhar o julgamento de forma discreta, visando “fechar o capítulo”; - A artimanha de pedir aos partidos políticos, envolvidos no mensalão, para manter a aparência de calma; - A artimanha de fazer o possível para que a pauta dos telejornais não seja concentrada no julgamento do mensalão; - A artimanha de desqualificar as provas sobre a existência de uma “sofisticada quadrilha”; - A artimanha de dizer que a acusação é desprovida de provas; - A artimanha de elogiar os advogados de defesa dos réus do mensalão. Infelizmente o STF é - parece - muito dividido: alguns ministros pró-condenação e outros pró-absolvição. “O julgamento assemelha-se a uma competição eleitoral, com dois partidos disputando uma vaga: a de fazer justiça” (Joaquim Falcão. Quem tem razão, Barbosa ou Lewandowski? Folha de S. Paulo, 19/08/12, p. A4). A sociedade espera que o STF julgue os réus do mensalão com isenção e com justiça, tendo como único critério de julgamento a verdade dos fatos. Inclusive, os culpados devem ser punidos e obrigados a devolver aos cofres públicos o dinheiro subtraído ilicitamente. Caso isso não aconteça, o STF ficará totalmente desmoralizado frente à opinião pública. "Três coisas devem ser feitas por um juiz: ouvir atentamente, considerar sobriamente e decidir imparcialmente" (Sócrates). "Não procure tornar-se juiz se não tiver força para eliminar a injustiça. Do contrário, você se acovardaria diante de um poderoso e mancharia a sua própria integridade" (Eclo 7,6). Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 03/09/12, p. 02 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120903&p=21 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=70042 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Frei Humberto: 60 anos a sérviço do Povo de Deus

Frei Humberto Pereira de Almeida nasceu em 22 de julho de 1924, em Santa Cruz do Rio Pardo - SP. Muito jovem ainda entrou na Vida Religiosa. Depois do ano de Noviciado, fez a Primeira Profissão na Ordem dos Frades Pregadores (Dominicanos) em 11 de fevereiro de 1947. Estudou filosofia e teologia em Bolonha, Itália. Ordenou-se Padre na mesma cidade, em 6 de julho de 1952, pela imposição das mãos do Cardeal-Arcebispo de Bolonha, Dom Giacomo Lercaro, um homem que teve uma atuação de destaque no Concílio Vaticano II, sobretudo na área da renovação litúrgica. No dia 6 de julho do corrente ano, Frei Humberto completou 60 anos de Padre (de Ordenação Presbiteral) e comemorou suas Bodas de Diamante Sacerdotais com uma Solene Celebração Eucarística, às 19h, na Comunidade Paroquial São Judas Tadeu, Setor Coimbra, em Goiânia, onde Frei Humberto foi Pároco por diversos anos e onde continua servindo com dedicação e amor até hoje. Houve uma numerosa participação dos paroquianos, que mostra o quanto Frei Humberto é querido. Estiveram presentes Irmãos Dominicanos (entre os quais, Dom Frei Celso Pereira de Almeida, irmão do homenageado e Frei Edmilson de Oliveira, Prior Provincial da Província Frei Bartolomeu de Las Casas), Irmãs Dominicanas das Congregações que atuam em Goiânia, muitos parentes e amigos do Frei Humberto, Dom Washington, arcebispo de Goiânia, Dom Antônio, arcebispo emérito de Goiânia, Dom Carmelo, bispo de São Luis de Montes Belos e alguns padres amigos da Arquidiocese de Goiânia. Foi uma Celebração de ação de graças pela vida do Frei Humberto, presidida por ele mesmo. Depois da Celebração, Frei Humberto, comovido e emocionado, recebeu os cumprimentos do povo no Salão São Domingos e participou de uma bonita e calorosa confraternização. Durante sua longa caminhada na Ordem Dominicana, Frei Humberto - sempre muito estimado entre seus Irmãos Dominicanos - desempenhou diversas vezes funções de coordenação. Nestes últimos anos, foi Prior (Coordenador) do Convento dos Frades Dominicanos em Goiânia e atualmente é Vice-Prior do mesmo Convento, Vice-Provincial dos Frades Dominicanos do Brasil e Promotor do Rosário na Província. Frei Humberto viveu intensamente o carisma da Ordem dos Pregadores (Ordem Dominicana), dedicou toda sua vida ao serviço da Igreja, na Pastoral. Foi Pároco por várias vezes, fundou - com um Grupo de Casais - o ENCASA (Encontro de Casais) da Paróquia São Judas Tadeu, em Goiânia e adquiriu uma vasta experiência na Pastoral Familiar. Terminada a Celebração, em frente ao Salão São Domingos, foi descerrada uma placa comemorativa que diz: “Ao Frei Humberto Pereira de Almeida. O ENCASA ao ensejo da comemoração dos seus 60 anos de intensa atividade sacerdotal, manifesta o seu mais profundo reconhecimento pela sua fecunda mensagem espiritual, tornando-se um verdadeiro arauto da evangelização da família, notadamente na consolidação do ENCONTRO DE CASAIS da Paróquia São Judas Tadeu. Goiânia, 06 de julho de 2012”. Frei Humberto foi também presidente da CRB - Regional de Goiânia, por 5 anos e sub-secretário da CNBB - Regional Centro Oeste, por 11 anos. A partir de sua rica experiência de vida como Religioso Dominicano e como Padre na Pastoral, Frei Humberto escreveu os livros: A Igreja em construção (Max Gráfica e Editora Ltda.), em 2001; O Sacerdócio e sua história (Editora Ave Maria), em 2007; A família no mundo em transformação (Editora Paulus), em 2010. No mesmo ano, escreveu também o livro: Rezar o Rosário. Rezando a vida e a história (Gráfica e Editora América Ltda.). No livro Rezar o Rosário, Frei Humberto nos provoca e nos apresenta “o sentido profundo do Rosário, fazendo - como ele mesmo diz - uma proposta á Família Dominicana e a todos os religiosos, religiosas, leigos e leigas, que conosco trabalham, caminham e refletem na construção da Igreja viva que somos”. Diz ainda Frei Humberto: “A minha proposta é a seguinte: estamos completando 500 anos da presença da Ordem Dominicana na América, que teve início com a presença e atuação profética da primeira Comunidade de Frades em Santo Domingo e com a adesão, pouco mais tarde, de Frei Bartolomeu de Las Casas. Ordem não só de homens, mas também de mulheres pregadoras - uma Família Dominicana. A primeira Comunidade Dominicana veio para o ‘Novo México’ em 1510”. Continua Frei Humberto: “Convidamos os nossos Irmãos e Irmãs para refletir os ‘mistérios’ do Rosário na caminhada dos 500 anos na construção da nossa história” (p. 11-12). Enfim, entre as muitas qualidades (virtudes) do Frei Humberto, quero destacar três: a simplicidade, a fé e a sabedoria. A primeira é a simplicidade, da qual emergem outras qualidades. Frei Humberto é um homem simples, generoso, sensível, emotivo, alegre (mas também sério, quando precisa), fraterno e acolhedor. Está sempre interessado na vida e missão de seus Irmãos Dominicanos e atento - com muito respeito - às diferentes situações de vida em que se encontram as famílias do nosso povo. Frei Humberto é um pai, um irmão, que sofre com quem sofre, se alegra com quem se alegra e sabe dizer a palavra certa no momento certo. Pessoalmente, tenho de frei Humberto uma lembrança, muito bonita, dos longínquos meses de novembro e dezembro de 1967, quando, terminados os estudos de filosofia e teologia em Bolonha, Itália, cheguei no Brasil com 28 anos de idade e um ano de Padre. Frei Humberto acolheu-me em São Paulo muito fraternalmente, animou-me, incentivou-me e ajudou-me a entender a realidade sócio-cultural e eclesial do Brasil, abrindo-me novos horizontes. Vivíamos então - sobretudo na grande cidade de São Paulo - uma época de muita efervescência e de intensa renovação da Igreja, depois do Concílio Vaticano II. Os dois anos em que fiquei em São Paulo foram muito ricos para a minha formação e experiência missionária. A segunda qualidade é a fé. Frei Humberto é um homem de uma fé profunda, de uma fé-vida; um homem que realmente acredita no Projeto de Jesus, que é o Reino de Deus e dá a vida por Ele. A terceira qualidade é a sabedoria. Frei Humberto é um homem sábio, de uma sabedoria que vem de Deus, de sua vida de fé. É muito procurado e estimado como conselheiro e orientador espiritual. Parabéns, Frei Humberto, pelo seu testemunho de vida e pelos 60 anos de dedicação e amor a serviço do Povo de Deus e de um Mundo Novo. Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 12/07/12, p. 07 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120712&p=23 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano

terça-feira, 10 de julho de 2012

Um SUS que descarta os Idosos

Em 8 de junho/12 escrevi o artigo “Um SUS que mata os Pobres”, denunciando a morte de doentes graves na fila de espera por vaga em UTI do SUS e a impunidade dos responsáveis. (Leia o artigo em: http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120608&p=23 ou em http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=67698. Ele foi publicado em, pelo menos, mais treze sites ou blogs). Como se isso não bastasse e por incrível que pareça, no dia 28 do mesmo mês de junho, com profunda indignação, tomei conhecimento que, na ocupação das vagas em UTI do SUS, os idosos são descartados (talvez para que morram mais depressa), dando a preferência às pessoas mais novas. O mesmo acontece com outros doentes que - sem serem idosos - requerem internação prolongada e alto custo de tratamento. Que discriminação inconcebível! Que crime bárbaro! Vejam as manchetes de uma reportagem, que saiu na imprensa há poucos dias: “Meu pai não conseguiu vaga em UTI porque é velho”. “Familiares denunciam que a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) prioriza encaminhamento de jovens”. Depois das manchetes, no resumo da matéria, o repórter afirma: “Angustiadas, duas famílias sofreram durante dias à espera de vagas de UTIs em Goiânia para parentes idosos. Um deles, Abner Soares, de 80 anos, aguardou seis dias pela vez. Segundo a filha, Maria Rita, seis pessoas mais jovens conseguiram vagas nesse período. O Ministério Público investiga denúncias” (O Popular, 28/06/12, 1ª página). Esperamos que o Ministério Público faça realmente uma investigação séria dos fatos denunciados e de outros semelhantes, sem se omitir e sem ser conivente com esta situação criminosa. O Ministério Público deve uma satisfação à sociedade. Os responsáveis por tamanha desumanidade precisam ser processados, julgados e punidos. Estamos - parece - diante de um comportamento nazista em pleno século XXI. No desenvolvimento da matéria, o repórter diz ainda. As duas famílias à espera de vagas de UTIs em Goiânia, “há dias, aguardavam por uma notícia que não chegava e sofreram com a demora e (reparem!) com suspeitas de que a idade dos pacientes seria empecilho para uma transferência”. São palavras que cortam o coração de qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade humana. Só após a reportagem da TV Anhanguera, a SMS conseguiu os dois leitos necessários. Maria Rita Soares, de 29 anos, filha de Abner David Soares, de 80 anos, “conta que, nos corredores do Cais (Jardim Novo Mundo), a informação é de que jovens têm preferência no encaminhamento para UTIs e, por ser idoso, o pai não teria conseguido a vaga”. Vejam que absurdo e que falta de humanidade! “Em uma única tarde - diz Maria Rita - pelo menos seis pessoas, que deram entrada na unidade depois do pai, já haviam sido encaminhadas, todas mais jovens”. Maria Rita - vivendo momentos de angústia e tensão ao ver a situação do pai se agravando a cada dia - lamenta: “Meu pai entrou aqui falando, agora está em coma” (Ib., p, 3). . Enfim, depois de tanta demora e tanto sofrimento, Abner foi transferido para o Hospital Geral de Goiânia (HGG), em estado grave. Desabafando, a filha de Abner diz: “Se ele continuasse fora da UTI, com certeza já poderia estar morto”. E ainda: “Acredito que se não tivéssemos corrido atrás do Ministério Público e falado com a imprensa, ele ainda estaria esperando, se já não tivesse morrido” (Ib., 29/06/12, p. 4). No mesmo Cais, a família de Arcelina Dias Mesquita, de 78 anos, com pneumonia e enfisema pulmonar, aguardava há cinco dias uma vaga em UTI. Wallisson Brandão, de 32 anos, neto de Arcelina, afirma: “As vagas surgem, mas eles estão passando outras pessoas na frente. Três pessoas, que chegaram depois dela, já conseguiram vaga. Os próprios médicos dizem que os jovens têm preferência, porque os idosos demoram mais tempo para se recuperar”. Depois que surgiu a notícia que havia uma vaga no Hospital Cidade Jardim, Arcelina chegou a ser levada, na noite do dia 27/6, àquele Hospital, mas, infelizmente, “o que parecia o fim de uma espera angustiante, transformou-se em mais um capítulo de desrespeito”. Ao chegar ao local, “a família (da idosa) foi informada de que o leito disponível não teria respirador, equipamento essencial para a paciente, que sofre enfisema pulmonar e apresenta quadro de pneumonia grave” (Ib.). Arcelina precisou voltar ao Cais e passar mais uma noite, esperando por vaga em UTI. Finalmente, só no início da tarde do dia seguinte, conseguiu uma vaga no mesmo hospital a que foi encaminhada na noite anterior. Não dá para acreditar! Parecem histórias de outro mundo. Diante do caos e de tudo o que está acontecendo na saúde pública, não podemos ficar calados. Seria omissão e conivência. Precisamos denunciar essa situação de pecado social (injustiça institucionalizada) e lutar para que o direito à saúde – que é o direito à vida - de todos/as seja respeitado pelo poder público como prioridade absoluta. Lembremos o tema e o lema da Campanha da Fraternidade deste ano de 2012: “Fraternidade e saúde pública”. “Que a saúde se difunda sobre a terra!" (Cf. Eclo, 38,8). Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 06/07/12, p. 03 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120706&p=19 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=68544 Fr. Marcos Sassatelli

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Oportunismo político

A aliança - amplamente divulgada na imprensa de modo ostensivo, debochado e cínico - de Maluf com Haddad (e o Lula, seu padrinho), do Partido Progressista (PP) com o Partido dos Trabalhadores (PT) é um espetáculo político repugnante. A impressão que essa aliança dá é que, no meio político, a sem-vergonhice não tem limite. Trata-se de oportunismo político desavergonhado. Para os políticos oportunistas não existem ideais, projetos políticos ou correntes de pensamento. Seu comportamento é meramente pragmático. A sede de poder é tanta, que - para conseguir alguns minutos a mais na propaganda televisiva - tudo é permitido, tudo é lícito, até a aliança com o capeta, se for necessária. Quanta baixeza moral Quanta falta de dignidade! A maior decepção é com o PT, que no passado - por ser então um partido diferente - suscitou tantas esperanças nos trabalhadores/as e que, por causa da busca do poder a qualquer custo (único princípio “ético” do partido, atualmente), se vendeu, passando do outro lado (o lado dos poderosos, dos opressores). O PT renegou o ideal de um projeto político popular (não reformista, mas alternativo ao projeto capitalista), que acontece na história (um processo dialético) pela ação dos trabalhadores unidos e organizados, juntamente com seus aliados. O PT - com a exceção de algumas correntes minoritárias, que ainda resistem ao desmoronamento político-ético do partido - tornou-se hoje o Partido dos Traidores (por ironia, a sigla continua a mesma: PT). O psicopedagogo e professor Durbem (embora não concordando com ele quando afirma que “político é tudo farinha do mesmo saco”), expressa os sentimentos de muitas pessoas e faz um desabafo, dizendo: "Lula traiu o povo brasileiro... Prova que politico é tudo farinha do mesmo saco... Lula, Color, Maluf, Haddad, todos nadam na cachoeira dos esquemas das maracutaias do jogo sombrio do poder a qualquer preço e custo!" (http://noticias.bol.uol.com.br/brasil/2012/06/25/lula-diz-nao-se-arrepender-nem-um-pouco-de-alianca-com-maluf.jhtm - comentário). O Lula é hoje um dos maiores cara-de-pau, populista, demagogo e tapeador do povo, debochando de tudo e de todos, e agindo politicamente como um verdadeiro coronel. Infelizmente, ele ainda conta com muitos seguidores. São políticos que não têm um pensamento e uma personalidade própria, mas gostam de viver à sombra de um ídolo e de ser mandados. “Aliança política” não é um acordo pontual sobre alguma ação concreta (com a qual - numa determinada circunstância e por razões diferentes - pode-se estar de acordo), mas é a união em torno de um objetivo comum e de um projeto político-ideológico com o qual se comunga. Em outras palavras, uma aliança política supõe comunhão de entendimentos naquilo que - no projeto político-ideológico - é essencial, embora possa haver diferenças naquilo que é acidental. Aliás, foi isso que o PT (quando ainda era PT) sempre defendeu. As alianças políticas só eram permitidas com partidos situados no campo democrático-popular. PT: quem te viu e quem te vê! Um dia depois da feijoada que - na mansão do próprio deputado - selou o apoio de Paulo Maluf (PP-SP), o pré-candidato do PT a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, perdeu sua vice. A deputada Luiza Erundina (PSB-SP), 77, deixou a chapa em protesto contra a aliança (Cf. Folha de S. Paulo, 20/06/12, p. A4). Parabéns Erundina pelo seu gesto de coerência política, virtude muito rara no dias de hoje, sobretudo entre os políticos! Felizmente, o povo está começando a tomar consciência do oportunismo e descaramento, de muitos de nossos políticos. Dia 27 do mês corrente, a imprensa noticiou: “64% dos petistas rejeitam apoio de Maluf. Aliança com ex-prefeito pode tirar votos de Haddad. Influência de Lula segue em queda em São Paulo” (Ib., 27/06/12, p. A8). Para justificar a aliança política, sempre em nome da chamada governabilidade (que governabilidade!), usam-se desculpas esfarrapadas. O ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, afirma: “Como nós aceitamos o apoio do PP no governo federal, é natural que houvesse uma aproximação com o PP paulista”. O sociólogo Emir Sader não vê novidade no apoio, uma vez que o PP é da base aliada federal e diz: “O fundamental é derrotar a ‘tucanalha’. Eu posso gostar ou não do Maluf, mas vou fazer campanha para o Haddad do mesmo jeito” (Ib., 26/06/12, p. 09). Pergunto ao eminente sociólogo: Qual é a diferença que existe hoje entre a “tucanalha” e a “petecanalha”, entre a “malufcanalha” e a “lulacanalha”? Vejam o que dizia Lula em 28 de junho de 1984: “O símbolo da pouca-vergonha nacional está dizendo que quer ser presidente. Daremos a nossa vida para impedir que Paulo Maluf seja presidente”. Veja também o que dizia Maluf, no dia 1º de janeiro de 1993: “Ave de rapina é o Lula, que não trabalha há 15 anos e não explica como vive” (http://i.mundogump.com.br/massupload/779246lula%20e%20maluf%202.jpg). Vejam, pois, o que dizia Lula no dia 25 deste mês: não me arrependo "nem um pouco" da aliança eleitoral costurada com o deputado Paulo Maluf (PP-SP) em torno da candidatura do petista Fernando Haddad. Vejam ainda o que dizia Maluf no mesmo dia: “Da maneira que exerceu a Presidência, diria que o Lula está à minha direita. Eu, perto do Lula, sou comunista. Eu não teria tanta vontade de defender os bancos e as multinacionais como ele defende. Quando ele tira imposto dos carros, tira da Volkswagen, da Ford, da Mercedes. Quando defende sistema bancário, defende quem? Os banqueiros. Eu, Paulo Maluf, industrial, estou à esquerda do Lula. De modo que ele foi uma grata revelação do livre mercado, da livre iniciativa” (Folha de S. Paulo, Ib.). Que metamorfose! Infelizmente, diante de tanto oportunismo, de tanto descaramento e de tanta maracutaia, muitos - inclusive intelectuais - se omitem. Só para citar um exemplo, a filósofa Marilena Chauí, a respeito da aliança, se limitou a dizer: “Não acho nada. Nadinha”. Pessoalmente, concordo com o advogado Hélio Bicudo - que é fundador do PT e deixou a legenda após o escândalo do mensalão, porque ela “se deteriorou” - quando ele afirma: “Não vejo novidade. Aqueles que são iguais, que têm o mesmo estofo se cumprimentam” (Ib. p. A7). Em geral, intelectuais e políticos que deixaram o PT, criticaram a aliança com o Maluf e com o PP. Só para lembrar. Segundo noticiou a imprensa, o ex-prefeito paulistano Maluf é “procurado em 127 países pela Interpol” (http://correiodobrasil.com.br/erundina-volta-atras-e-desiste-da-chapa-com-pt-por-causa-de-maluf/472149/). Que boa companhia que o PT arrumou! Vale o sábio ditado popular: “Diga-me com quem você anda e eu direi quem você é”. Apesar de tanta sem-vergonhice, um “outro mundo” é possível e necessário. Lutemos por ele. A esperança nunca morre. Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 29/06/12, p. 06 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120629&p=22 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) Prof. de Filosofia da UFG aposentado Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos (Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO) Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos