sexta-feira, 29 de abril de 2022

A questão da “radicalidade” na Igreja

 

Todo cristão ou cristã é chamado ou chamada a ser radicalmente ser humano. Ora, enquanto estamos no mundo - no tempo e no espaço - podemos crescer sempre na vivência do humano. Nunca serenos humanos ou humanas demais, nunca exageraremos em ser humanos ou humanas.

"Todo aquele que segue Cristo, o Homem perfeito, torna-se ele também mais ser humano" (GS 41). "A fé esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do ser humano. E, por isso, orienta a mente para soluções plenamente humanas" (GS 11).

No seguimento de Jesus de Nazaré, a radicalidade humana pode ser vivida de muitas maneiras, conforme os carismas (dons) e ministérios (serviços) de cada um e de cada uma.

Em nossa Igreja Católica, um dos caminhos para viver essa radicalidade é a chamada “Vida Religiosa Consagrada”: “Religiosos” - que em sua maioria são também Ministros ordenados - e “Religiosas” das diversas Ordens, Congregações e Institutos.  

Permito-me, agora, fazer alguns questionamentos a respeito dessa terminologia comumente aceita.

Os que, “Religiosos” e “Religiosas”, pertencemos à chamada “Vida Religiosa Consagrada”, não temos o direito de nos apropriar dessas palavras.

Todo ser humano que pratica uma religião é “religioso ou religiosa”, ou seja, tem “vida religiosa”. E ainda: todo cristão ou cristã, batizado ou batizada é “consagrado” ou “consagrada”, ou seja, tem “vida religiosa consagrada”. Aliás, nós ensinamos que o Batismo é a consagração fundamental, que nos torna seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré, continuadores e continuadoras de sua missão no mundo.

Lamentavelmente (como já disse em outras ocasiões), no decorrer da história, criamos uma Igreja com estrutura social de três classes: Hierarquia, Vida Religiosa Consagrada e Laicato.

Precisamos voltar ao Evangelho e acabar com as classes para sermos uma Igreja somente de irmãos e irmãs, como eram as primeiras Comunidades cristãs.

Com isso, não quero dizer que devemos uniformizar tudo. Ao contrário! É justamente numa Igreja de irmãos e irmãs que temos condições de apreciar o valor e a beleza da imensa variedade e diversidade dos carismas (dons) e dos ministérios (serviços), que o Espírito Santo (o Deus Amor) suscita na Igreja. Um dos carismas - que devemos valorizar -  é justamente a Vida Cristã de Particular Consagração”, em resposta a um chamado pessoal de Deus (o novo nome que sugiro para a chamada “Vida Religiosa Consagrada”). Esse “carisma” é um caminho - entre outros - para viver a radicalidade da consagração batismal: “projeto de vida cristã radical”. Ele se desdobra em dois carismas: um comum à toda “Vida Cristã de Particular Consagração” e outro próprio de cada Ordem, Congregação ou Instituto.

Na Igreja, o “projeto de vida cristã radical” pode ser assumido publicamente ou em caráter particular, mas sempre na comunhão eclesial.

Acredito que - se formos uma Igreja de irmãos e irmãs realmente comprometida com o Projeto de Jesus no mundo de hoje, que é o seu Reino, Deus suscitará novas formas de “Vida Cristã de Particular Consagração” e muitas pessoas - das mais diversas formas - farão a experiência do chamado de Deus para viverem o “projeto de vida cristã radical”, por amor aos irmãos e às irmãs a partir dos Pobres.

Considerando a nossa realidade sócio-econômico-político-ecológico-cultural-religiosa, Deus poderá, por exemplo, chamar trabalhadores e trabalhadoras para seguirem mais de perto Jesus de Nazaré - que também foi trabalhador (carpinteiro) - assumindo o “projeto de vida cristã radical” a serviço dos companheiros e companheiras:  nos Movimentos Sociais Populares, nos Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, nos Partidos Políticos Populares e nos Comitês ou Fóruns de Defesa dos Direitos Humanos e da Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum.

Esses Trabalhadores e Trabalhadoras continuarão vivendo com seus familiares ou - se for por opção deles e delas - em pequenos grupos de base (grupos de vivência). Pessoalmente peço a Deus que nos dê essa graça. Na Igreja e na sociedade atual precisamos muito disso.

Por fim, se ser cristão ou cristã é ser radicalmente ser humano, ser radicalmente cristão ou cristã (vivendo o “projeto de vida cristã radical”) é ser radicalmente ser humano em dobro, com tudo o que isso significa.

“Deus é Amor. Todo aquele/aquela que permanece no Amor permanece em Deus, e Deus nele/nela” (1 Jo 4,16).

Estamos no tempo pascal. Que a Páscoa seja para nós cristãos e cristãs uma realidade de todo dia: Passagem para uma vida de amor sempre mais radical. São estes os meus votos a todos os irmãos e irmãs de caminhada.


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 24 de abril de 2022



domingo, 3 de abril de 2022

Pessoas humanas não se despejam

 


“Por um Brasil sem despejos” Como foi amplamente divulgado nas redes sociais, a luta contra os despejos no Brasil continua!

“A suspensão dos despejos, prorrogada pela última vez em dezembro e com validade até 31 de março, se deu no âmbito da ADPF 828 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental), impetrada pelo PSOL, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e outras entidades da sociedade civil”.

Na noite de terça-feira passada, 29 de março, “representantes de Movimentos Sociais Populares, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e 13 parlamentares do PSOL, PCdoB e PT fizeram uma audiência com o ministro Barroso em Brasília.  Foram apresentados, com base em dados da Campanha Despejo Zero e da Abrasco sobre a vigência da pandemia, a urgência de que a liminar seja prorrogada, bem como o impacto humanitário caso aconteçam os despejos em massa no país”.  

Ante o exposto, o Ministro Luís Roberto Barroso tomou a seguinte decisão: “Defiro parcialmente o pedido de medida cautelar incidental, nos seguintes termos:

   1. Mantenho a extensão, para as áreas rurais, da suspensão temporária de desocupações e despejos, de acordo com os critérios previstos na Lei nº 14.216/2021, até o prazo de 30 de junho de 2022;

   2. Faço apelo ao legislador, a fim de que delibere sobre meios que possam minimizar os impactos habitacionais e humanitários eventualmente decorrentes de reintegrações de posse após esgotado o prazo de prorrogação concedido;

    3. Concedo parcialmente a medida cautelar, a fim de que os direitos assegurados pela Lei nº 14.216/2021, para as áreas urbanas e rurais, sigam vigentes até 30 de junho de 2022. Brasília, 30 de março de 2022”.

Caso a liminar - a ADPF 828 - não tivesse sido prorrogada, mais de 132 mil famílias, ou seja, cerca de meio milhão de pessoas poderiam ser “despejadas” à força de suas moradias, no campo e na cidade.

A prorrogação da suspensão dos despejos até 30 de junho de 2022 é uma vitória, embora pequena,

  • das moradoras e moradores das Ocupações com suas lideranças, verdadeiras heroínas e heróis, que lutam pelo direito sagrado à moradia digna;
  • dos Movimentos Sociais Populares, que com sua presença militante apoiam e acompanham a luta por moradia digna: o Movimento de Trabalhadoras/es por Direitos (MTD), o Movimento de Trabalhadoras/es Sem Teto (MTST), o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), o Movimento Nacional da População em situação de Rua (MNPR) e outros;
  • das Comunidades Cristas, sobretudo CEBs, que também apoiam e acompanham essa mesma luta.

Realmente está mais do que provado que o deus do capitalismo neoliberal é obezerro de ouro” de que fala o livro do Êxodo. “Fizeram para si um bezerro de ouro e o adoraram” (Ex. 32,8).

Como ser humano e como cristão, reafirmo: do ponto de vista da Ética Social humana e, sobretudo, cristã (radicalmente humana), todo despejo é antiético e injusto. As pessoas humanas não se despejam e não podem ser tratadas com brutalidade e crueldade. Elas devem ser respeitadas em sua dignidade humana. A própria palavra “despejo” é ofensiva.

Volto a insistir: só existem dois casos nos quais as pessoas podem ser removidas com dignidade de uma Ocupação: se o terreno for de utilidade pública ou de preservação ambiental e - mesmo nesses dois casos - somente depois que estiverem prontas outras moradias dignas para serem ocupadas.

O papa Francisco nos lembra que os três T (Terra, Teto e Trabalho) são direitos sagrados, que estão acima do direito de propriedade.

Portanto, do ponto de vista ético, terras rurais ou urbanas sem função social ou destinadas à especulação imobiliária, pertencem a quem precisa delas para morar e trabalhar. Toda lei que vai contra a ética, é injusta e deve ser desobedecida. É uma questão de “objeção de consciência”!

Em defesa da Vida no Campo e na Cidade! Campanha Nacional DESPEJO ZERO!





Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 01 de abril de 2022


sexta-feira, 1 de abril de 2022

A questão da “sinodalidade” na Igreja (2ª parte)

 

Motivados pelo novo Sínodo (outubro de 2021 - outubro 2023) com o tema "Por uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão", na 1ª parte deste artigo refletimos sobre o que é “sinodalidade”.

Na 2ª parte, vamos refletir sobre os pilares da sinodalidade: comunhão, participação e missão.

“Deve-se revalorizar entre nós a imagem cristã dos seres humanos”, destacando a liberdade como valor fundamental. “Esta liberdade é a um tempo dom e tarefa. Ela não se alcança verdadeiramente sem a libertação integral e é, em sentido válido, meta do ser humano segundo nossa fé, uma vez que ‘para a liberdade é que Cristo nos libertou’ (Gl 5,1) a fim de que tenhamos vida e a tenhamos em abundância, como ‘filhos/as de Deus e co-herdeiros/as do próprio Jesus Cristo’ (Rm 8,17)” (Documento de Puebla - DP 321).

Ora, “a liberdade implica sempre aquela capacidade que todos temos, em princípio, de dispor de nós mesmos, a fim de irmos construindo uma comunhão e uma participação que hão de se plasmar em realidades definitivas” (DP 322). Isso acontece em três planos inseparáveis: a relação do ser humano com o mundo como cuidador (jardineiro), com as pessoas como irmão/ã e com Deus como filho/a (cf. ib.).

Portanto, é através da unidade indissolúvel desses três planos que “aparecem melhor as exigências de comunhão e participação que brotam desta dignidade. Se no plano transcendente se realiza em plenitude nossa liberdade pela aceitação filial e fiel de Deus, entramos em comunhão de amor com o mistério divino e participamos de sua própria vida. O contrário é romper com o amor filial, repelir e desprezar o Pai. São duas possibilidades extremas  que a revelação cristã chama graça e pecado” (DP 326): graça individual e graça social ou estrutural; pecado individual e pecado social ou estrutural.

“O amor de Deus que nos dignifica radicalmente se faz necessariamente comunhão de amor com os outros seres humanos e participação fraterna; para nós, hoje em dia, deve tornar-se sobretudo obra de justiça para com os oprimidos, esforço de libertação para quem mais precisa. De fato, ‘ninguém pode amar a Deus a quem não vê, se não ama o irmão a quem vê’ (1 Jo 4,20). Todavia a comunhão e a participação verdadeiras só podem existir nesta vida projetadas no plano bem concreto das realidades temporais” (DP 327).

Como Igreja somos chamados a continuar a missão de Jesus de Nazaré no mundo de hoje. “A missão evangelizadora é de todo o Povo de Deus. Esta é sua vocação primordial, ‘sua identidade mais profunda’ (Evangelii Nuntiandi - EN 14). É a sua felicidade. O Povo de Deus com todos os seus membros, instituições e planos existe para evangelizar. O dinamismo do Espírito de Pentecostes anima-o e envia-o a todos os povos. Nossas Igrejas particulares hão de escutar, com renovado entusiasmo, o mandato do Senhor: ‘Ide, pois, e fazei discípulos meus todos os povos’ (Mt 28,19)” (DP 348). Precisamos nos tornar cada vez mais uma “Igreja em saída”.

A Opção pelos Pobres, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e a Teologia da Libertação são as três marcas que constituem a identidade do modelo de Igreja que surgiu no contexto da II Conferência de Medellín.

A Opção pelos Pobres (Empobrecidos, Marginalizados, Oprimidos, Excluídos e Descartados) indica o caminho que devemos seguir para sermos a Igreja de Jesus de Nazaré: uma Igreja a partir da “manjedoura” e de tudo o que ela significa hoje.

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) são Comunidades “encarnadas” na vida do povo, são um jeito novo e, ao mesmo tempo, antigo de ser Igreja. São “o primeiro e fundamental núcleo eclesial” ou “a célula inicial da estrutura eclesial” (Medellín, XV, 10), que transformam a Paróquia em “um conjunto pastoral unificador das Comunidades de Base” (ib. 13).

A Teologia da Libertação é a leitura - análise e interpretação - à luz da Palavra, que as Comunidades cristãs e seus teólogos, fazem da Práxis (Prática e Teoria) de Libertação.

O método (caminho) utilizado é “ver, julgar, agir” (analisar, interpretar e libertar) e celebrar (cf. Clodovis Boff. A originalidade histórica de Medellín: em http://servicioskoinonia.org/relat/203p.htm 1/8).

E nós? Qual é o nosso modelo de Igreja? Que Igreja queremos ser? A comunhão e a participação são uma realidade concreta ou são só palavras? Em nossa missão, assumimos o lado dos pobres? Somos de verdade seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré?



                                                 https://fraternitasmovimento.blogspot.com


                                                                    https://marista.edu.br


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 23 de março de 2022



O artigo foi publicado originalmente em:
https://portaldascebs.org.br/a-questao-da-sinodalidade-na-igreja-parte-2/


segunda-feira, 21 de março de 2022

Toda guerra é um crime contra a humanidade

 


Não existe guerra justa. Não há nenhum motivo no mundo que justifique uma declaração de guerra. Toda guerra é um crime contra a humanidade. Os que se acham no direito de declarar guerra - seja qual for o motivo - são criminosos e assassinos.

A declaração de guerra e a invasão russa da Ucrânia iniciou em 24 de fevereiro deste ano. As principais razões (que na realidade não são razões) apontadas para tentar justificar tamanha iniquidade humana, que é a guerra contra um país irmão, são: a possibilidade de adesão da Ucrânia à OTAN, aliança militar de 30 países, que se expandiu pelo Leste Europeu; a contestação do direito à autodeterminação da Ucrânia e, consequentemente, do direito à soberania independente da Rússia; e o desejo de Vladimir Putin de restabelecer a zona de influência da antiga União Soviética.

A guerra já chegou ao seu 23º dia na sexta-feira 18 deste mês de março “com relatos de bombardeios russos a áreas residenciais e ao metrô de Kiev, evacuação da cidade estratégica de Mariupol e com a expectativa da retomada de negociações de paz, que foram interrompidas no dia anterior. O último balanço de Moscou estimava em quase 500 o número de soldados russos mortos. Mas fontes de inteligência americana dizem que algo entre 2 mil e 4 mil soldados russos morreram. Kiev afirma que morreram 1,3 mil soldados ucranianos. A estimativa é de que, só em Mariupol, mais de 2,5 mil civis tenham sido mortos. A BBC (British Broadcasting Corporation: Corporação Britânica de Radiodifusão) não conseguiu verificar esses números de forma independente. Até agora, a ONU estima que mais de 2,8 milhões de ucranianos deixaram o país” (em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60740855).

Mesmo que não haja sempre concordância quanto ao número de mortes de civis e militares da Ucrânia e da Rússia, com certeza essa guerra absurda e totalmente irracional já causou milhares e milhares de vítimas inocentes.

Como podem Vladimir Putin e todos os que apoiam a guerra ser tão insensíveis e tão cruéis? Como podem ser frios assassinos de milhares de vítimas inocentes?  Não são esses criminosos os verdadeiros demônios de hoje?

Ora, o que deve também ser denunciado e condenado como diabólico é o comportamento do Patriarca de Moscou Cirillo I, da Igreja Ortodoxa Russa, nossa Igreja Irmã.  Recentemente Cirillo I - que se declara amigo de Vladimir Putin - disse em discurso público que a guerra é justa porque luta contra modelos de vida contrários à tradição cristã. Que absurdo! Infelizmente, com esse seu posicionamento, este nosso irmão mostrou que não entendeu nada do Evangelho. Para um cristão de qualquer Igreja é muito doído ouvir essas palavras do Patriarca, que - como pastor - deveria ser um testemunho vivo de radicalidade evangélica. Oremos pela sua conversão!

Graças a Deus, nem tudo está perdido! A esperança nunca morre! Com sua autoridade moral, mundialmente reconhecida, o nosso irmão o papa Francisco - após a oração do Angelus de domingo 13 deste mês de março - lançou um caloroso e sincero apelo pelo fim do "massacre" e do "ataque armado inaceitável" na Ucrânia. Francisco condenou a "barbárie" de matar civis, incluindo crianças. E implorou: "Em nome de Deus, peço que parem com esse massacre".

Ouçamos o clamor do papa e peçamos a Deus que os responsáveis pela guerra na Ucrânia voltem ao uso da razão. Façamos nossa a Oração da Paz de São Francisco de Assis.

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz!
Onde houver ódio, que eu leve o amor;

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido;

amar que ser amado.
Pois é dando que se recebe;
é perdoando que se é perdoado;
e é morrendo que se vive para a Vida eterna.





Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 18 de março de 2022


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Jesus como o grande Educador

 

No Brasil, desde 1964, a Igreja promove a Campanha da Fraternidade (CF), que tem seu tempo forte na Quaresma e continua durante o ano todo. A Campanha apresenta sempre um Tema e um Lema que nos ajudam a viver a Quaresma como tempo de conversão, mudança de vida e preparação para a Páscoa, construindo uma sociedade e uma cultura mais justas, fraternas e solidárias, e fazendo acontecer a Boa Notícia do Reino de Deus na história do ser humano e do mundo: a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum.

O Tema deste ano de 2022 é: Fraternidade e Educação e o Lema: Fala com sabedoria, ensina com amor (cf. Pr 31,26). Por ser sempre atual, neste ano, é a terceira vez que o tema Educação aparece na CF (as primeiras duas foram em 1982 e 1998), sob prismas diferentes.

O mundo e nele o Brasil “estão diante de um desafio: redescobrir caminhos para uma reconstrução que não é parcial, mas global; que não atinge somente alguns aspectos, mas deve chegar às raízes do modo como pessoas e povos compreendem e organizam a totalidade da vida. O mundo de nosso tempo precisa encontrar caminhos para se reconstruir, ouvindo os clamores dos vulneráveis em uma casa comum cada vez mais vulnerabilizada” (CF22. Texto-Base. Apresentação).

Educar “é um ato eminentemente humano. Somos renovados quando aprendemos mais a respeito da vida e seu sentido, quando nos ensinam novos conhecimentos e quando percebemos que em nós existe a profunda sede de aprender e ensinar” (ib.).     

Educar “é também uma ação divina. A Bíblia nos mostra a história de um Deus que educa seu povo, caminhando com ele, compreendendo suas fragilidades, respeitando suas etapas e alertando diante dos erros. Quando contemplamos as ações e palavras de Jesus, encontramos um caminhar educativo. Sua presença atenciosa junto às pessoas, a relação entre os milagres e a conversão, o uso de exemplos recolhidos do cotidiano, tudo, enfim, nos apresenta Jesus como o grande educador” (ib).

Neste ano, a CF 22, “mais do que abordar um ou outro aspecto específico da problemática educacional, nos convoca a refletir sobre os fundamentos do ato de educar” (ib.). Nos recorda que educar não é um ato isolado. É encontro no qual todos são educadores e educandos. É tarefa da própria pessoa, da família, da escola, da Igreja e de toda a sociedade. Afinal, como nos ensina o conhecido provérbio de origem africana, ‘é preciso uma aldeia para se educar uma criança’” (ib.)

A realidade da educação “nos interpela e exige profunda conversão de todos/as. Verdadeira mudança de mentalidade, reorientação da vida, revisão das atitudes e busca de um caminho que promova o desenvolvimento pessoal integral, a formação para a vida fraterna e para a cidadania” (CF22. Texto Base, nº 5)

Todos e todas “somos convidados a ver a realidade da educação em diversos âmbitos, iluminá-la com a Palavra de Deus, encontrando e redescobrindo meios eficazes que favoreçam processos mais adequados e criativos a fim de que ninguém seja excluído de um caminho educativo integral que humanize, promova a vida e estabeleça relações de proximidade, justiça e paz. A educação é um indispensável serviço à vida. Ela nos ajuda a crescer na vivência do amor, do cuidado e da fraternidade” (ib. nº 6)

“O testemunho de uma Igreja (acrescento eu: de Base) missionária é o princípio que qualifica o anúncio do Evangelho e a torna capaz de propor aos homens e mulheres de boa vontade um novo aprendizado: educar é um ato de esperança no ser humano. É contribuir para que cada pessoa, cada discípulo/a missionário/a de Jesus Cristo ofereça o melhor de si a Deus, ao próximo, à Igreja e à sociedade. Educar com sabedoria e amor é estimular o cuidado pela vida, desde a concepção, passando pelo fim natural, até a eternidade. Convictos do poder transformador da educação pedimos: Senhor, ajudai-nos a criar um mundo novo!” (CF22. Texto Base, nº 221).

Educação pública de qualidade para todos e para todas!

Vivamos e sejamos sempre promotores de uma educação libertadora “desde os Pobres”: a educação praticada pelo grande educador Jesus de Nazaré e seu seguidor Paulo Freire.

 

Oração da Campanha da Fraternidade 2022

           

Pai Santo, neste tempo favorável de conversão e compromisso, dai-nos a graça de sermos educados pela Palavra que liberta e salva. Livrai-nos da influência negativa de uma cultura em que a educação não é assumida como ato de amor aos irmãos e de esperança no ser humano. Renovai-nos com a vossa graça para vencermos o medo, o desânimo e o cansaço, e ajudai-nos a promover uma educação integral, fraterna e solidária. Fortalecei-nos, para que sejamos corajosos na missão de educar para a vida plena em família, em Comunidades Eclesiais (de Base) missionárias, nas escolas, nas universidades e em todos os ambientes. Ensinai-nos a falar com sabedoria e educar com amor! Permitais que a Virgem Maria, Mãe educadora, com a sabedoria dos pequenos e pobres, nos ajude a educar e servir com a pedagogia do diálogo, da solidariedade e da paz. Por Jesus, vosso Filho amado, no Espírito, Senhor que dá a vida. Amém.




Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 28 de fevereiro de 2022

A questão da “sinodalidade” na Igreja (1ª parte)

 

Em outubro de 2021, o Papa Francisco deu início a um novo Sínodo (sýnodos: caminhar juntos)  com o tema: "Por uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão". Trata-se de um caminho sinodal de três anos, articulado em três fases: diocesana, continental, universal.

  • Fase diocesana: outubro de 2021 a abril de 2022;
  • Fase continental: setembro de 2022 a março de 2023;
  • Fase universal: outubro de 2023.

Terminada a fase continental, a Secretaria Geral do Sínodo - recolhendo tudo o que foi refletido nas bases - enviará um segundo Documento de Trabalho aos participantes da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que será realizado em Roma, segundo os procedimentos da Constituição Apostólica “Episcopalis Communio” (terceira e última fase).

O itinerário do caminho sinodal - afirma o papa Francisco - “foi concebido como um dinamismo de escuta recíproca (gostaria de frisar: um dinamismo de escuta recíproca), conduzido em todos os níveis da Igreja e que diz respeito a todo o Povo de Deus”. Os bispos, os padres, os religiosos, as religiosas e todos os cristãos e cristãs “devem ouvir-se” e, depois, “ouvir-se uns aos outros”. “Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap. 2,7).

“O Sínodo é até o limite. Inclui a todos e todas: os pobres, os mendigos, os jovens toxicodependentes, todos esses que a sociedade descarta, fazem parte do Sínodo”. “O cristianismo deve ser sempre humano, humanizante, reconciliar diferenças e distâncias, transformando-as em familiaridade, em proximidade”. “Em tempo de pandemia, o Senhor impulsiona a missão de uma Igreja que seja sacramento de cuidado”. “Um dos males da Igreja, aliás uma perversão, é esse clericalismo que separa o padre, o bispo das pessoas”.  

 “O tema da sinodalidade não é o capítulo de um tratado sobre eclesiologia, e muito menos uma moda, um slogan ou um novo termo a ser usado ou instrumentalizado nos nossos encontros. Não! A sinodalidade expressa a natureza da Igreja, a sua forma, o seu estilo, a sua missão”. Assim falamos de Igreja sinodal, “seguindo o que podemos considerar o primeiro e mais importante ‘manual’ de eclesiologia, que é o livro dos Atos dos Apóstolos.

No caminho sinodal, “a fase diocesana é muito importante, porque realiza a escuta de todos os batizados e batizadas”. Precisamos “superar a imagem de uma Igreja dividida entre líderes e subordinados, entre os que ensinam e os que têm de aprender, esquecendo que Deus gosta de inverter as posições: ‘derrubou os poderosos dos seus tronos e elevou os humildes’ (Lc 1, 52)”.

Caminhar juntos “evidencia mais a horizontalidade do que a verticalidade”. Nós pastores “caminhamos com o povo, às vezes à frente, outras no meio e outras atrás. O bom pastor deve caminhar na frente para guiar, no meio para encorajar e não esquecer o cheiro do rebanho, atrás porque também o povo tem ‘faro’. Tem olfato para encontrar novas vias para o caminho, ou para encontrar novamente a vereda perdida”.

Como cristãos e cristãs, “o senso da fé (sensus fidei) nos qualifica na missão profética de Jesus Cristo, para que possamos discernir quais são os caminhos do Evangelho hoje” (cf. Concílio E. Vaticano II. A Igreja - LG, 34-35).

(Fonte:https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2021/september/documents/20210918-fedeli-diocesiroma.html).

Fala-se que o Sínodo é “o maior processo de consulta democrática da história da Igreja Católica” (acrescento: a partir da Igreja imperial). Nas Comunidades da Igreja primitiva, todos e todas viviam como irmãos e irmãs. Tudo era comum e decidido em comum.

É realmente louvável e merece total apoio o esforço do nosso irmão o papa Francisco para que toda a Igreja viva a sinodalidade, o caminhar juntos. Ora, na vivência da sinodalidade temos - penso eu - quatro momentos. Neste Sínodo estamos vivendo os primeiros dois momentos:

  • 1º momento: a vivência da sinodalidade nas reflexões dos Encontros diocesanos e continentais;
  • 2º momento: a vivência da sinodalidade nas propostas que surgem nesses Encontros (apresentação e aprovação). 

Falta ainda a vivência do terceiro e do quarto momentos da sinodalidade - abaixo relacionados - para que a Igreja volte a ser, em nossa realidade de hoje, uma Igreja realmente evangélica, como as primeiras Comunidades cristãs.

  • 3º momento: a vivência da sinodalidade na Assembleia Geral Ordinária do Sínodo do Povo de Deus (terceira e última fase do caminho sinodal), substituindo o Sínodo dos Bispos. Afinal, a Igreja não é o Povo de Deus?
  • 4º momento: a vivência da sinodalidade na aprovação das decisões tomadas na Assembleia e publicadas no Documento final.

A vivência do 3º e 4º momentos da sinodalidade só será possível quando a nossa Igreja Católica tomar realmente consciência que todos os seres humanos têm a mesma dignidade e que, por isso, devem viver a igualdade e praticar a democracia de maneira plena, sem restrições.

A vivência da sinodalidade é, portanto, a prática da democracia radical na Igreja das pessoas de fé.

Um exemplo a ser seguido: por 50 anos a Prelazia de S. Felix do Araguaia, com seu bispo Dom Pedro Casaldáliga, viveu plenamente a sinodalidade (em seus quatro momentos). “Havia uma verdadeira horizontalidade - bispo, padres, religiosos, religiosas e demais cristãos e cristãs - todos e todas eram protagonistas. Todos e todas tinham direito a falar nas reuniões e a votar em assuntos que exigiam decisões conjuntas. Todos e todas eram irmãos e irmãs pelo mesmo batismo que receberam. Este jeito de ser Igreja vivido na Prelazia mostra que outra Igreja é possível!” (Prelazia de São Félix do Araguaia. Alvorada, julho-setembro, 2021).

Um dia chegaremos lá! Esperançar é preciso! (Veja no http://freimarcos.blogspot.com/ os artigos sobre as questões da dignidade, da igualdade e da democracia na Igreja).



                                                                     Ave Maria


Dom Pedro Casaldáliga - Brasil de Fato RS


Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 14 de fevereiro de 2022


O Artigo foi publicado originalmente em:
https://portaldascebs.org.br/a-questao-da-sinodalidade-na-igreja/



segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A Igreja das catacumbas está muito viva


A Igreja das Catacumbas é a “Igreja Pobre, para os Pobres, com os Pobres e dos Pobres”. É a Igreja CEBs, “que nasce do povo pelo Espírito de Deus”. É a Igreja de Jesus de Nazaré.

No dia 16 deste mês de fevereiro, assistimos - presencialmente ou online - ao espetáculo de uma Igreja imperial e triunfalista: a chamada “posse canônica” do novo arcebispo de Goiânia - GO, Dom João Justino de Medeiros Silva, no Santuário Basílica Sagrada Família. Como já escrevi no artigo anterior, cristão ou cristã não toma posse, mormente se a “posse” for a demonstração de uma Igreja poderosa (veja em: http://freimarcos.blogspot.com/2022/02/cristao-ou-crista-nao-toma-posse.html ou https://ocaminheirodoreino.com/2022/02/16/cristao-ou-crista-nao-toma-posse%EF%BF%BC/).

A respeito da Celebração de “posse” do novo arcebispo de Goiânia, duas denúncias precisam ser feitas:

Primeira denúncia: a irresponsabilidade da Arquidiocese de Goiânia em relação à questão da saúde. Na ”posse”, a Igreja desrespeitou acintosamente as orientações de segurança sanitária da OMS, em relação a COVID-19 e suas variantes. Uma das orientações é justamente evitar aglomerações e o contato próximo com muitas pessoas, principalmente em espaços fechados. As imagens da chamada “posse canônica” comprovam essas aglomerações.

Segunda denúncia: infelizmente, o Projeto pastoral de Dom João Justino é - como ele mesmo disse - a continuação do Projeto pastoral de Dom Washington Cruz. Ele está claramente delineado nessas palavras:

“Meu querido Dom Washington, meu querido patriarca. Sucedê-lo é uma bênção e uma grande responsabilidade. O senhor ofereceu sua vida à Igreja do Brasil, particularmente neste Regional onde está como bispo há 35 anos. Os seus últimos 20 anos de zelo, cuidado e serviço à Igreja de Goiânia nos permitem, hoje, avançar mais seguros. Qualquer agradecimento que eu lhe fizer será muito pouco por tudo o que o senhor fez. Já disse ao senhor que quero tê-lo como referência. Escutá-lo será muito importante para compreender o que esta Igreja pede de mim. Saiba que terei a alegria de zelar por seu bem-estar”.

Enganam-se redondamente aqueles e aquelas que pensam que essas palavras são somente uma cortesia ou um agrado a Dom Washington. Dizer isso, significa não conhecer os meandros dos ambientes eclesiásticos (não eclesiais) ou clericais.

Sem julgar a consciência de ninguém - só Deus pode fazer isso - na caminhada de renovação da Igreja em Goiânia - que eu vivi intensamente desde o início da década de 70 - Dom Washington representa um retrocesso de 50 anos em 20, ou seja, a volta a uma Igreja pré-conciliar.

Só para citar um exemplo: no último Diretório de Catequese da Arquidiocese de Goiânia, a “Catequese Renovada” (que marcou a renovação da Catequese no Brasil depois do Concílio) e os Documentos da II Conferência de Medellín (que são o Concílio para a América Latina e Caribe) não são nem lembrados. Trata-se de um esquecimento proposital.

 Tudo indica que Dom João Justino vai dar continuidade - embora com alguns atos ditos progressistas - ao projeto de restauração pastoral de Dom Washington. Também o que podemos esperar de um arcebispo que - como o próprio Dom Washington - vai morar num palacete episcopal? Não é um contratestemunho permanente para a Igreja dos Pobres? Não tinha acabado a época dos palacetes episcopais?

A meu ver, a primeira atitude que Dom João Justino devia ter tomado seria: morar numa casa simples numa Comunidade pobre e transformar o palacete episcopal num Centro para as Pastorais Sociais Ambientais que trabalham junto com os Movimentos Populares. Fica aqui uma sugestão.

Pessoalmente, não estou disposto a “mendigar” pequenos espaços de apoio aos Pobres dentro de uma estrutura de Igreja aliada dos Pilatos e Herodes de hoje. Pobres não precisam de “momentos de atenção ou cuidados especiais”. Eles precisam que a Igreja assuma - como Jesus de Nazaré - seu lado e se comprometa com sua causa, que é a causa de um Mundo Novo, ou seja, do Reino de Deus na história do ser humano e da Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum. Só assim a Igreja será realmente evangélica.

A Igreja das CEBs e a Teologia da Libertação têm a força do Espírito Santo e é por isso que continuam vivas, muito vivas, mesmo que seja nas Catacumbas.  





                   https://www.oabgo.org.br/oab/noticias/institucional/oab-go-prestigia-posse-canonica-de-dom-justino-de-medeiros-silva/


Marcos Sassatelli, Frade dominicna
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 18 de fevereiro de 2022


A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos