sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Debochando da cara dos Pobres



No final do mês de janeiro passado, no artigo “Imoralidades públicas desavergonhadas”, eu disse que essas imoralidades - legalizadas e institucionalizadas - fazem parte “da lógica perversa e cruel da sociedade capitalista neoliberal”.

Hoje, eu acrescento mais um elemento para a nossa reflexão: defender e apoiar essas imoralidades significa debochar da cara dos Pobres. Como exemplos, cito três fatos recentes: dos deputados da Assembleia Legislativa de Goiás (ALEGO), dos vereadores da Câmara Municipal de Goiânia e dos juízes do Tribunal de Justiça de Goiás, que mostram claramente o que estou dizendo.

Primeiro fato: na Assembleia Legislativa de Goiás (ALEGO), “deputados criam mais 170 cargos comissionados” para indicações dos próprios parlamentares, com “impacto anual de cerca R$ 15 milhões” (O Popular, 11/02/25, p. 4).  

“Goiás tem a Assembleia com mais comissionados no País” (O Popular, 15 e 16/02/25, 1ª página - Manchete). “Total de cargos cresceu 114% em 10 anos. São 128 servidores por deputado”. “Casa cria mais Secretarias e o número já chega a 51” (Ib., cf. também p. 4).

Segundo fato: “Vereadores aprovam a criação de 41 cargos em votação a jato”, em 15 segundos (O Popular, 21/02/25, p. 6), com os votos contra de Fabrício Rosa e Edward Madureira (PT). O impacto mensal será de R$ 467 mil. A reestruturação, proposta pela mesa diretora, eleva o número de diretorias de 15 para 21.

Quanta mordomia para os parlamentares - deputados de Goiás e vereadores de Goiânia - às custas do Povo! Como foi amplamente divulgado na imprensa e nas redes sociais, somente a viagem do governador de Goiás Ronaldo Caiado e da comitiva de 26 auxiliares à Índia - de 08 a 23 deste mês de fevereiro - tem despesas de R$ 1,1 milhão. Os três participantes da Câmara Municipal de Goiânia na comitiva, Romário Policarpo, presidente da Casa e dois servidores custam R$ 223, 4 mil.

É uma falcatrua atrás de outra e - pior ainda - com dinheiro público, roubado “legalmente”. Trata-se de um descaramento que não tem limite! Esses parlamentares debocham da cara dos Pobres com o maior cinismo.

Terceiro fato: “O TJ (Tribunal de Justiça de Goiás) pagou mais de R$ 100 mil em todos os meses de 2024” (O Popular, 12/02/25, p. 4). “Levantamento mostra que a folha de magistrados e pensionistas do Judiciário goiano teve 725 ocorrências de pagamentos acima do valor: pico ocorreu em janeiro, com 196 casos” (Ib.).

Dá para acreditar na Justiça desse Tribunal?

Os parlamentares - deputados e vereadores - e os juízes deveriam:

1. Tomar consciência da realidade social (socioeconômica, sociopolítica, socioecológica ou socioambiental, sociocultural e sociorreligiosa) de profunda desigualdade e injustiça do mundo e do Brasil, hoje.

“Dois terços de todas as novas riquezas geradas no mundo, nos últimos dois anos, foram acumulados por 1% da população. O dado consta no mais novo relatório da Oxfam" (uma Confederação Internacional de 19 Organizações e mais de 3000 parceiros, que atua em amis de 90 Países na busca de soluções para o problema da pobreza, da desigualdade e da injustiça).

“O mundo gerou 42 trilhões de dólares em dois anos. Dois terços desse valor ficou nas mãos de 1% da população mundial. Na última década, o 1% mais rico do mundo acumulou, aproximadamente, 50% da riqueza mundial”. (https://www.cartacapital.com.br/mundo/dois-tercos-da-riqueza-do-mundo-sao-acumulados-por-1-da-populacao-mundial-diz-oxfam/).

“63% da riqueza do Brasil está nas mãos de 1% da população, diz relatório da Oxfam”. “Levantamento também aponta que os 50% mais pobres detêm apenas 2% do patrimônio do país” (https://www.cnnbrasil.com.br/).

2. Lutar juntos para mudar essa realidade totalmente desumana e antiética, defendendo os Direitos Humanos e da Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum e fazendo acontecer um Mundo Novo, um Brasil Novo.

Por fim, brevemente, faço - mais uma vez - a memória (para que nunca mais aconteça) dos 20 anos (16 de fevereiro de 2005) de impunidade do despejo diabólico de cerca 14.000 pessoas (4.000 famílias) da Ocupação “Sonho Real” no Parque Oeste Industrial, mediante as Operações militares de guerra - planejadas pelo Estado de Goiás e pela Prefeitura de Goiânia - maldosa e cinicamente chamadas “Operação Inquietação” e “Operação Triunfo”. Não dá para entender como o ser humano possa ser tão perverso e tão cruel. Tudo em nome do “deus dinheiro”.

Quem desejar fazer uma hora de meditação sobre a maldade humana veja na Internet o documentário da Mídia Independente: “Sonho Real: uma história de luta pela moradia”.

A moradia digna é um direito fundamental de todo ser humano. Mesmo com essa perversidade, a luta do “Sonho Real” continua! A vitória é e será nossa!


Ocupação “Sonho Real” - Despejo






Marcos Sassatelli Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282
https://freimarcos.blogspot.com/ 

Goiânia, 21 de fevereiro de 2025

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Os responsáveis pela morte de Samuel

 


Em teoria, o Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil - como todos e todas sabemos - é um dos melhores Planos de Saúde Pública do mundo. Na prática, porém - para a maioria do nosso Povo pobre, oprimido, excluído e descartado - não funciona por três razões fundamentais:

  • Primeira: por causa da omissão dos governantes do Poder Público Federal, Estadual e Municipal, que - por terem sido eleitos pelo Povo - deveriam estar a serviço do Povo. Em geral, essa omissão não é somente - uma irresponsabilidade ética pessoal de alguns governantes, mas é uma irresponsabilidade ética estrutural: “legalizada” e “institucionalizada.
  • Segunda: por causa do desinteresse da maioria dos parlamentares - senadores, deputados federais, estaduais e vereadores, que também - por terem sido eleitos pelo Povo como seus representantes - deveriam defender os direitos do Povo, mas não o fazem.
  • Terceira: por causa da apatia da própria Sociedade civil, que não se une, não se organiza e não luta por seus direitos, como o direito à Saúde, que é fundamental.

“Bebês cardiopatas agonizam em Goiás; um deles morreu” (https://opopular.com.br/cidades/bebes-cardiopatas-agonizam-em-goias-um-deles-morreu-1.3225832).

Seu nome é Samuel Belém Moura, nascido no dia 11 de dezembro de 2024, na Maternidade Maria da Cruz, em Aparecida de Goiânia. Com 47 dias “não aguentou e morreu na fila de espera por cirurgia do Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (HECAD). O bebê foi diagnosticado com malformação no coração na primeira semana de vida”.

“Bebê morre na fila de espera do governo Caiado. Cirurgia nunca aconteceu. Saúde está desastrosa em Goiás e a Organização Social (OS) fatura milhões por mês no HECAD”.

“A Organização Social AGIR é dona do contrato milionário do HECAD desde 2022. Estranhamente, o Governo Caiado sempre fez de tudo para manter o contrato da OS, que é boa para levar a grana pública, mas incompetente para administrar as Unidades de Saúde em Goiás, que o digam HUGOL e CRER”.

“Desculpa esfarrapada. Para encobrir a incompetência da OS que fatura horrores de milhões por mês, o Secretário de Saúde, Rasível Reis, disse que faltam profissionais especializados para ampliar o número de vagas de UTI pediátrica. Piada”.

(https://goias24horas.com.br/204415-bebe-morre-na-fila-de-espera-por-cirurgia-do-governo-caiado-saude-esta-desastrosa-em-goias/)  

Do ponto de vista jurídico e - sobretudo - ético, os responsáveis dessa omissão de socorro são o secretário estadual de Saúde e o governador de Goiás. Eles sabem muito bem que - em caso de doente grave (criança ou adulto) - são obrigados a socorrê-lo imediatamente, mesmo que seja a pagamento num hospital particular.

O não cumprimento dessa obrigação - vendo, no caso de Samuel, a dor dos pais que, pela omissão de socorro, aguardavam a morte do filho - é de uma crueldade e iniquidade humanas inimagináveis. O secretário da Saúde e o governador de Goiás devem ser culpabilizados, processados e condenados.  

Em Goiás, a questão do direito à Saúde para todos e todas deveria ser também a primeira preocupação da Assembleia Legislativa do Estado, cujos deputados - por terem sido eleitos pelo Povo como seus representantes - deveriam defender os direitos do Povo.

Infelizmente, a maioria dos deputados e deputadas demonstra uma irresponsabilidade política de um cinismo desavergonhado.

Como prova do que estou dizendo, cito somente um exemplo. Hoje, a principal preocupação da maioria dos deputados e deputadas estaduais de Goiás é a troca - com dinheiro público “roubado” dos Pobres - da frota de carros, comprados há menos de dois anos, por outra, no valor total de R$ 16,8 milhões.  A cara-de-pau desses parlamentares é tão grande que dá nojo.

Além disso, eles querem hipocritamente nos fazer acreditar - como se fôssemos idiotas - que os carros usados por menos de dois anos, serão doados - num gesto de generosidade dos deputados - às Prefeituras. Quando - na verdade - todos nós sabemos (a notícia saiu até na Imprensa) que a “doação” é propaganda político-eleitoral disfarçadamente antecipada. Que vergonha! É uma verdadeira farra com o dinheiro público!

Por fim, mesmo com tudo isso, esperançar é preciso!

“Esperançar é se levantar, é ir atrás, é construir, é não desistir, é levar adiante, é juntar-se com os outros para fazer de outro modo” (Paulo Freire).

Unidos e unidas, queremos uma Nova Sociedade e lutamos por ela; queremos um Mundo Novo e lutamos por ele.





Marcos Sassatelli Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282
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Goiânia, 03 de fevereiro de 2025


domingo, 26 de janeiro de 2025

Imoralidades públicas “desavergonhadas”

 



No final do mês de dezembro passado - tendo presente que 60% dos trabalhadores brasileiros/as vivem com até um salário mínimo mensal (R$ 1.518,00) e que 70% ganham no máximo dois salários mínimos mensais (R$ 3.000,36) - denunciei, como imoralidade pública “desavergonhada”, a aprovação (26/12/24) pelos Vereadores da Câmara Municipal de Goiânia de um auxílio-representação de R$ 6.900,95, um terço do salário de R$ 20.702,85, que já recebiam, num total de R$ 27.603,80. Só um Vereador, Fabrício Rosa (PT), renunciou publicamente ao auxílio e merece a nossa solidariedade.

A lista das imoralidades públicas “desavergonhadas” - legalizadas e institucionalizadas - continua e tudo indica que não vai terminar tão cedo. Faz parte da lógica perversa e cruel da sociedade capitalista neoliberal. Em nome do deus dinheiro tudo é permitido.

Denuncio mais dois casos estaduais de imoralidade pública “desavergonhada”, que são de um cinismo inacreditável: um roubo legalizado e institucionalizado do dinheiro dos Pobres.

Primeiro caso: na Folha de pagamento de dezembro de 2024 da Companhia de Urbanização de Goiânia (COMURG), 25 funcionários receberam um salário bruto maior que o do Prefeito (R$ 35 mil). O valor dos 10 maiores salários vai de R$ 47,7 mil até R$ 97,1 mil (cf. O Popular, 16 de janeiro de 2025, p. 11. Fonte: Portal da Transparência da Prefeitura de Goiânia).

Segundo caso: “ALEGO paga novo auxílio de R$ 11 mil a todos os deputados” (O Popular, 22 de janeiro de 2025, pág. 4. Manchete).

“A Assembleia Legislativa de Goiás (ALEGO) pagou a todos os Deputados Estaduais, sem exceção, a gratificação de R$ 11,5 mil criada no apagar das luzes dos trabalhos em 2024, de maneira retroativa ao dia 1º do mês passado. O valor aumentado pelo auxílio-representação consta da Folha de pagamento referente aos salários de dezembro, de acordo com o Portal de transparência da Casa” (Ib.). Com a nova gratificação, o salário bruto dos Deputados passou de R$ 39,496,77 para 50,498, 90 em dezembro passado.

Pergunto: O fim da Política - e também da Política partidária - não é o Bem Comum, ou seja, o bem de todos e de todas? (Política vem de “polis”: cidade; seu fim é o bem da cidade). Onde está a preocupação da grande maioria dos nossos Vereadores e Deputados com o bem comum?

As injustiças estruturais - legalizadas e institucionalizadas - são gritantes. Por exemplo: “População em situação de rua no Brasil cresce 25% em um ano” (O Popular, 03 de janeiro de 2025, pág. 11. Manchete): “de 261.653 pessoas em dezembro de 2023 para 327.925 no final do ano passado” (Ib.). São dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Será que a maioria dos nossos Vereadores e Deputados está preocupada com essa realidade? Não parece!

No dia 16 de fevereiro completam 20 anos do maior e mais perverso despejo de toda a história do Brasil: o da Ocupação Sonho Real do Parque Oeste Industrial, em Goiânia. O despejo foi uma verdadeira operação de guerra de uma iniquidade e crueldade inimagináveis: duas mortes reconhecidas, muitos feridos, inúmeras crianças traumatizadas e quase mil pessoas detidas. Numa hora e meia cerca de 14.000 pessoas foram jogadas na rua da forma mais brutal possível. Eu vivi isso de perto! Não dá para acreditar que o Ser humano seja capaz de tanta maldade! 20 anos de impunidade!

Os nossos Vereadores e Deputados estão preocupados em fazer a memória de um fato como esse, para que nunca mais aconteça? E a respeito do direito à moradia digna para todos e para todas, o que os nossos Vereadores e Deputados dizem e fazem?

Por que esses Vereadores e Depudados não votam “auxílios” para os Movimentos Populares que lutam pelos Direitos à Terra, Teto (Moradia) e Trabalho? (os três T do Papa Francisco).

E, em nível nacional, o que dizer?

“Os salários dos Ministros do Tribunal Superior do Trabalho (TST) chegaram a R$ 419 mil líquidos em dezembro de 2024. Treze vezes mais que o teto do funcionalismo público - hoje em R$ 32 mil deduzidos impostos e contribuição social. Ao todo foram pagos aproximadamente R$ 10 milhões em salários” (https://www.cnnbrasil.com.br/politica/supersalarios-ministros-do-tst-receberam-ate-r-419-mil-em dezembro/).

“Os salários dos Ministros do Superior Tribunal Militar (STM) foram turbinados no mês de dezembro. De R$ 41.808,09 de remuneração básica, houve integrante da corte que recebeu R$ 318.580,38 líquidos. É o caso do ministro general Odilson Sampaio Benzi, que recebeu o maior montante” (https://www.cnnbrasil.com.br/politica/supersalarios-ministros-do-stm-recebem-mais-de-r-300-mil-em-penduricalhos/).

“No Superior Tribunal de Justiça (STJ), a remuneração de maior valor de um Ministro no período foi de R$ 119 mil líquidos. De acordo com dados do painel, a média de dezembro entre os magistrados da corte ficou em R$ 88 mil” (https://www.google.com/search?q=Sperior+Tribunal+de+Justi%C3%A7a+-+STJ+-+Sal%C3%A1rio+de+88mil%3F&rlz=1C1CHZN_pt-). Sem palavras!

A luta continua! A esperança nunca morre!



ALEGO - Foto: Sérgio Rocha


Marcos Sassatelli Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
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Goiânia, 24 de janeiro de 2025


sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Ocupação “Sonho Real”: um despejo diabólico

 


20 anos de impunidade

Todo ano, no dia de 16 de fevereiro, não podemos deixar de fazer a memória do despejo diabólico dos Moradores - cerca 14 mil pessoas (4 mil famílias) - da Ocupação “Sonho Real”, no Parque Oeste Industrial, em Goiânia - GO, para que tamanha iniquidade humana nunca mais aconteça.

À época, o Governador Marconi Perillo tinha prometido publicamente - numa entrevista coletiva, na qual eu estava presente - que não iria mandar retirar as famílias da Ocupação “Sonho Real” e que estava decidida a desapropriação da área. Inclusive, tratava-se de uma área com todas as condições legais para que acontecesse a desapropriação.

Apesar de ter publicamente empenhado sua palavra (os Moradores fizeram até festa), Marconi Perillo, pressionado pelos donos das grandes Imobiliárias de Goiânia - os que realmente mandam na capital - foi covarde, não manteve a palavra dada e voltou atrás. Por ser bastante valorizada, a área da Ocupação “Sonho Real” tinha se tornado objeto de “especulação imobiliária” dos adoradores do deus dinheiro.

De 6 a 15 de fevereiro de 2005, de 0 às 6h (reparem o horário!), a Polícia Militar do Estado de Goiás começou a ação violenta da chamada “reintegração de posse”. Cínica e maldosamente, recebeu o nome de "Operação Inquietação". Foram dez dias de tortura física e psicológica coletiva. Cercou a área com viaturas, impediu a entrada e a saída de pessoas e cortou o fornecimento de energia elétrica. Com as sirenes ligadas, com o barulho de disparos de armas de fogo, com a explosão de bombas de efeito moral (ou melhor: de “efeito imoral”!), gás de pimenta e lacrimogêneo, a Polícia Militar promoveu o terror entre os Moradores da Ocupação e provocou traumas psicológicos nas crianças. Que perversidade! Que crueldade! Nenhuma lei permite uma Operação noturna criminosa como essa.

Depois da “Operação Inquietação”, no dia 16 de fevereiro de 2005, a Polícia Militar do Estado de Goiás realizou uma verdadeira Operação Militar de Guerra, que também - cinica e maldosamente - foi chamada "Operação Triunfo". Em uma hora e quarenta e cinco minutos, cerca de 14 mil pessoas (4 mil famílias) foram despejadas de suas moradias de maneira violenta, truculenta e sem nenhum respeito pela dignidade da pessoa humana. A Operação Militar produziu duas vítimas fatais (Pedro e Vagner), 16 feridos à bala, tornando-se um desses paraplégico (Marcelo Henrique) e 800 pessoas detidas (suspeita-se com razão que o número de mortos e feridos seja bem maior).

Já disse e reafirmo: nessas Operações Militares criminosas e imorais - mesmo que hipocritamente legalizadas - todos os Direitos Humanos fundamentais foram gravemente violados: o Direito à Vida, o Direito à Moradia, o Direito ao Trabalho, o Direito à Saúde, o Direito à Alimentação e à Água, os Direitos das Crianças e dos Adolescentes, os Direitos das Mulheres, os Direitos dos Idosos e os Direitos das Pessoas com Necessidades Especiais.

Depois do despejo forçado e violento, e depois de passar uma noite acampadas na Catedral de Goiânia - onde aconteceu também o velório de Pedro e Vagner num clima de muita indignação e sofrimento - cerca de mil famílias (aproximadamente 2.500 pessoas), que não tinham para onde ir, ficaram alojadas nos Ginásios de Esportes dos Bairros Novo Horizonte e Capuava (por mais de três meses) e, em seguida, no Acampamento do Grajaú (por mais de três anos) como verdadeiros refugiados de guerra.

 Nesse período, diversas pessoas - sobretudo crianças e idosos - morreram em consequência das condições subumanas de vida, vítimas do descaso do Poder Público do Estado de Goiás e da Prefeitura de Goiânia. Foi o maior despejo (14 mil pessoas), o mais iniquo, o mais perverso e o mais cruel de toda a história de Goiânia, de Goiás e do Brasil cometido pelo Poder Público.

Em 16 de fevereiro deste ano de 2025, a “Operação Triunfo” - apesar de muitos esforços no sentido de exigir a “federalização do caso” e a justiça - completa 20 anos de impunidade. Que vergonha para a Justiça de Goiània, de Goiás e do Brasil! Quem pode acreditar nessa Justiça!

Os responsáveis por tamanha iniquidade, praticada contra os Pobres, aguardem a justiça de Deus!  Ela pode tardar, mas nunca falha!

“Vivemos - diz o Papa Francisco - em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários..., mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que as Ocupações pobres são marginalizadas ou, pior, quer-se erradicá-las! São cruéis as imagens dos despejos forçados, dos tratores derrubando barracos, imagens tão parecidas às da guerra. E isso se vê hoje” (Discurso de Francisco aos Movimentos Populares, outubro de 2014). Os Direitos à Terra, ao Teto (Moradia) e ao Trabalho (os três T) - diz ainda o Papa Francisco - são Direitos sagrados de todos e de todas.

Infelizmente, em nossa sociedae capitalista neoliberal, os Moradores das Ocupações são tratados como se fossem lixo degradável. O lixo reciclável é muito melhor tratado. Meditemos!

Como já disse outras vezes, mas nunca é demais repetí-lo, todo despejo é injusto e - se tiver liminar de juiz - é mais injusto ainda, porque torna-se uma injustiça legalizada e institutiainda.

Os adoradores do deus dinheiro lembrem que - do ponto de vista humano e ético - todo terreno urbano “largado” para futura especulação imobiliária e todo terreno ou latifúndio rural improdutivo e sem função social são de quem precisa deles para morar e/ou trabalhar.

Só existem três casos nos quais os Moradores das Ocupações podem ser removidos (digo, removidos, não despejados) com toda dignidade e respeito. Primeiro, se a área ocupada representa perigo de vida para os Moradores. O Poder público é obrigado a remover os Moradores imediatamente, mesmo que precise pagar o aluguel social para as famílas. Segundo, se a área ocupada for de utilidade pública, mas - nesse caso - somente depois que outras moradias dignas estiverem prontas para serem ocupadas pelas famólias a serem removidas. Terceiro, se a área ocupada for de preservaçao ambiental, mas nas mesmas condições do segundo caso.

Por fim, que a memória dos principais fatos, ocorridos antes, durante e depois do despejo dos Moradores da Ocupação “Sonho Real”, fortaleça o nosso compromisso com a construção de uma Nova Sociedade: a Sociedade do “bem-viver” e do “bem-conviver”, que é um “Mundo Novo” e, à luz da Fé, o Reino de Deus acontecendo na história do Ser humano e da Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum. O “Sonho Real” está vivo! Ele continua! É o nosso sonho!

(Veja no Facebook o Documentário: “Sonho Real: uma história de luta por moradia” do Coletivo da Mídia Independente - Goiânia - GO)                                                                                                             


Marcos Sassatelli - Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
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Foto: Arquivo/Jornal A Verdade      











O Ser humano meta-histórico

 


(Dando continuidade aos anteriores, neste artigo começamos a refletir sobre o Ser humano meta- histórico)

Vimos que o Ser humano - por “ser-no-mundo-com-o-mundo”, ou seja, por ter consciência de ser-no-mundo - é um ser histórico, situado (no espaço) e datado (no tempo). A historicidade marca o Ser humano todo, mas não é (não constitui) a totalidade do Ser humano.

O Ser humano histórico, "por um lado, experimenta-se limitado de muitas maneiras, por outro lado, sente-se ilimitado (infinito) em seus desejos e chamado a uma vida superior" (Conc. Vat. II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 10).

O Ser humano, portanto, percebe-se a si mesmo como um ser meta-histórico. A dimensão da meta-historicidade, é constitutiva do Ser humano.

Por sua condição existencial, o Ser humano histórico é - “já e ainda não” - um Ser humano meta-histórico. Pela “presença ontológica” ou “presença criadora” de Deus, o Ser humano histórico é essencialmente voltado (tende, anseia, aspira, orienta-se, projeta-se) para o meta-histórico. Ele meta-historiciza-se (supera-se, transcende-se) dialética e permanentemente, passando de um momento histórico para outro - melhor ou pior - até à meta-historicização absoluta (total) para “além da Morte” (além do tempo e do espaço): “Vida plena” ou “Morte plena”.

A meta-historicização absoluta do Ser humano histórico - como “Vida plena” - é a afirmação do "humano" em sua plenitude, é a humanização plena (Vida eterna, Páscoa definitiva, Plenitude da Ressurreição, Plenitude do Reino de Deus, Plenitude da Felicidade, Salvação eterna, Céu, Paraíso).

Em outras palavras, é a realização plena do Ser humano histórico em todas as suas dimensões e relações; é a convergência - cabal, final e máxima - de todas as suas possibilidades, de todos os seus anseios (desejos), de todas as suas aspirações e buscas concretas (reais); é o seu amadurecimento pleno no bem, sua abertura radical no amor, seu mergulho definitivo no mistério de Deus (que é Amor, Comunidade de Amor, Santíssima Trindade); é a satisfação absoluta de sua sede de Infinito.

É o Ser humano histórico que - de tão humano - se torna plenamente divino e - de tão divino - se torna plenamente humano.

Quando o Ser humano histórico se estabiliza (se fixa) no bem (no amor) e morre (passa do tempo para a eternidade) nesta condição, entra num estado definitivo de realização plena (total) de sua existência humana, que se torna uma existência carregada (cheia) de sentido (Vida eterna, Plenitude do Reino de Deus, Plenitude da Felicidade, Salvação eterna, Ceu, Paraiso).

A meta-historicização absoluta (total) do Ser humano histórico - como “Morte plena” - é a negação do "humano" em sua plenitude, é a desumanização plena (Morte eterna, Plenitude do Anti-Reino de Deus, Plenitude da Infelicidade, Perdição eterna, Inferno).

É a frustração (não-realização) total do Ser humano histórico em todas as suas dimensões e relações; é a não-convergência - cabal, final e máxima - de todas as suas possibilidades, anseios (desejos), aspirações e buscas concretas (reais); é o seu endurecimento pleno no mal, seu fechamento radical no egoísmo (desamor) e na auto-suficiência, sua rejeição definitiva do mistério de Deus.

É a falta de satisfação absoluta da sede de Infinito do Ser humano histórico. Quando o Ser humano histórico se estabiliza (se fixa) no mal e morre nesta condição, entra num estado definitivo de frustração absoluta (total) de sua existência, que se torna uma existência absurda, sem sentido.

(Cf. BOFF, L. Vida para além da Morte. Vozes, Petrópolis, 1973, p. 67-97. Para uma visão mais aprofundada da "questão da morte" do ponto de vista teológico (cristão), ver também: LIBÂNIO, J. B. e BINGEMER, M. C. L. Escatologia cristã. Vozes, Petrópolis, 1985).

São estas as duas "possibilidades" do Ser humano meta-histórico, mas sua "vocação ontológica" (a vocação que recebeu do Criador) é a meta-historicização como “Vida”, até à meta-historicização total (absoluta) como “Vida plena” ("ser mais" até "ser plenamente"). A meta-historicização como “Morte”, até à meta-historicização total (absoluta) como “Morte plena” é uma distorção dessa vocação.

Por fim, antes de terminar, sinto a necessidade de fazer, desde já, um esclarecimento: por Deus ser Amor - embora a “Morte Plena” seja para o Ser humano meta-histórico uma possibilidade ontológica - não acredito que ela aconteça de fato. Ao contrário, acredito que Deus dá a todos e todas - mesmo que seja no último momento de sua existência histórica - a possibilidade de fazer um ato de amor tão grande que muda totalmente sua vida.

Por experiência, ninguem de nós - criados à imagem e semelança de Deus por amor e para amar - ficaria feliz sabendo que um irmão (ou uma irmã), mesmo que tenha sido o maior criminoso do mundo, vive num estado de frustração e sofrimento por toda a eternidade.

(No final de nossas reflexões sobre o Ser humano meta-histórico, voltaremos sobre o assunto)

            

                

 

Marcos Sassatelli - Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

https://freimarcos.blogspot.com/ - Goiânia, 10 de janeiro  de 2025



               


                                                                                                                                                 

O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano-meta-historico/ (28/12/24)


terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Vereadores de Goiânia: R$ 27.603,80 - Salário mínimo do Brasil: R$ 1.518,00

 


O título fala por si só! É uma afronta! É um pontapé na cara dos Pobres! É uma violência legalizada e institucionalizada que - nas pessoas com um mínimo de sensibilidade humana - suscita uma profunda indignação.

Uma realidade como essa monstra que o Sistema Capitalista Neoliberal - estruturalmente desumano e antiético - é de uma iniquidade e perversidade diabólicas. Sua hipocrisia é de fazer inveja aos fariseus!

60% dos trabalhadores brasileiros/as vivem com até um salário mínimo mensal: R$ 1.518,00; 70% ganham no máximo dois salários mínimos mensais: R$ 3.000,36.

Em total contraste com essa reaidade, os Vereadores de Goiânia, que já têm um salário mensal de R$ 20.702,85, no dia 26 deste mês de dezembro/24, aprovaram - um bônus de um terço do salário, ou seja, R$ 6.900,95, que - somado ao salário - dá a quantia de R$ 27.603,80.

Por incrível que pareça, só dois Vereadores do PT se posicionaram contra o bônus: Kátia Maria e Fabrício Rosa. Esse último criticou a manobra durante a sessão dizendo: "Se as vossas excelências (e que “excelências”!) não estão conseguindo trabalhar com todos os privilégios, com todas as benesses, tem alguma coisa errada na política". Parabéns Kátia e Fabrício!

No dia 27 deste mesmo mês, o bônus teve a aprovação da Comissão de Constituição e Justiça (e que “justiça”!) da Câmara Municipal.

Por fim, no dia 30 deste mesmo mês ainda, o bônus foi aprovado de forma definitiva no plenário da Câmara Municipal em sessão extraordinária, com os votos contrários dos dois  Vereadores acima citados e mais dois: Aava Santiago (PSDB) e Sargento Novandir (MDB).

Que vergonha! Não dá mais para aguentar! Precisamos dar um “basta” a essa podridão política! Um dia - acredito eu - chegaremos a um “basta radical”, transformando a “prática político-partidária” em prática de voluntariado como a “prática sindical” e a “prática popular”. Isso acontecendo, os Políticos - que certamente serão bem diferentes - viverão de seu trabalho profissional. Só serão pagos - com salário mensal - os trabalhadores e trabalhadoras que, na Política Partidária, prestarão serviços de secretária e de administração. Um dia chegaremos lá!

Atualmente, até a maioria dos Partidos Políticos - que se dizem de esquerda - são Reformistas. Seus Governos não têm a preocupação de abrir caminhos novos, dando os passos históricos possíveis, para mudar o Sistema Capitalista Neoliberal Dominante, mas querem simplesmente oferecer algumas “balinhas” aos Pobres - sempre com promessas de mais “balinhas” - para que fiquem contentes com sua “doçura”, não façam greves e não se revoltem contra o Sistema, que os mata aos poucos e - o que é pior - legalmente.

Com essa política, que visa “adoçar” a vida sofrida da grande maioria do nosso Povo, os Governos dos Partidos Políticos Reformistas acabam reproduzindo - com alguns retoques - o Sistema Capitalista Neoliberal dominante. Suas estruturas não ficam minimamente abaladas, mas - ao contrário - fortalecidas.

Os Governos dos Partidos Políticos Populares - para serem coerentes - não podem e não devem fazer “Aliança” - que é “Comunhão de Projetos” - com os Governos Capitalistas Neoliberais, cada dia mais crueis. Do ponto de vista ético, só podem e devem fazer - em casos especiais - “acordos pontuais” para aliviar e, se possível, resolver situações de degradação humana e de sofrimento, que não podem esperar a mudança do Sistema.

Apesar de todas as ambiguidades e traições políticas, temos consciência que - mesmo com suas diferenças - são somente as Forças Sociais Populares (Partidos Políticos Populares, Síndicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Movimentos Populares, Comitês ou Fóruns de Defesa dos Direitos Humanos e de Cuidado para com a Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum e Outras) que, unidas e organizadas, têm condições de dar passos históricos concretos rumo ao Projeto Político Popular, igualitário, comunitário, justo, sem classes: um Projeto político de Irmãos e Irmãs, que é o verdadeiro Socialismo. É o Projeto pelo qual nós lutamos. É o Projeto de Jesus de Nazaré, que - infelizmente - a maioria dos que se dizem seus seguidores e seguidoras não vivem e, muitas vezes, deturpam para legitimar “hipócrita e religiosamente” um Projeto Político totalmente desumano.

Hoje - como diz o Papa Francisco - os Pobres não são somente “excluídos”, mas “descartados”, ou seja, não são nem “lixo reciclável”, mas “lixo descartável”.

A caminhada é longa, mas a luta continua!  Esperançar é preciso! Um Ano Novo muito Feliz e de muitas vitórias!

 

Marcos Sassatelli - Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

https://freimarcos.blogspot.com/ - Goiânia, 31 de dezembro de 2024


Câmara Municipal de Goiânia - Setor Central - Goiânia - GO

                                    Foto: Vanessa Chaves/G1



sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Viver o Natal de Jesus hoje

 


“Eu vim para que todos e todas tenham vida e a tenham em abundância” (Jo10,10).  Essas poucas palavras nos dizem, de maneira muito clara, porque Jesus veio ao mundo e qual foi a sua missão. Fica a pergunta: que caminho Jesus escolheu para fazer isso?

Como já disse outras vezes - e não me canso de repetir - no Natal e em toda sua vida - Jesus teve lado, o lado dos Pobres: os oprimidos, os excluídos, os descartados e todos aqueles e aquelas que - na sociedade - não tinham voz e não tinham vez. Desde o nascimento até a morte na cruz, Jesus sempre se identificou e solidarizou com os Pobres, incluindo a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum. Vejamos!

Tudo indica que - ainda no seio de sua mãe Maria e com seu pai José - Jesu foi “morador de rua”. Para cumprir o decreto de recenseamento, ordenado pelo imperador Augusto, “José, que era da família e descendência de Davi, subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida” (Lc 2,4-5). Antes que alguém - vendo a situação - abrisse um estábulo para Maria dar à luz - ela deve ter perambulado e dormido, com seu esposo José, nas ruas de Belém.                                                                                                                   

Com certeza, Jesus nasceu como “sem-teto”. Enquanto Maria e José estavam em Belém, “completaram-se os dias para o parto. Ela deu à luz seu filho primogênito. Envolveu-o em panos e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles dentro da casa” (Ib. 2,6-7).

Os primeiros que receberam a Boa Notícia do nascimento de Jesus foram os pastores - que eram os “sem-terra” da época - malvistos e desprezados pelos poderosos, porque ocupavam os campos com seus rebanhos de ovelhas. Segundo uma Lei daquele tempo, um pastor não podia ser testemunha em Tribunal. Não era considerado pessoa idônea.

O mensageiro de Deus disse aos pastores: “Não tenhais medo! Porque eis que lhes anuncio a Boa Notícia, uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias e Senhor” (Ib. 2,10-11).

Jesus recebeu a visita dos magos, sábios e estudiosos da natureza, que representavam todos os povos de todas as culturas. “Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele e lhe prestaram homenagem” (Mt 2,11).

Ainda criança, Jesus foi “migrante e refugiado” no Egito por causa da ganância de Herodes que queria matá-lo. O mensageiro de Deus falou em sonho a José: “Levante-se, pegue o menino e a mãe dele, e fuja para o Egito. Fique aí até que eu lhe avise, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo. Ele se levantou, e de noite pegou o menino e a mãe dele, e foi para o Egito. E aí ficou até a morte de Herodes” (Mt. 2,13-15).

Em sua vida anônima, Jesus foi carpinteiro com seu pai José. A respeito de Jesus, as pessoas diziam: “De onde vêm essa sabedoria e esses milagres? Esse homem não é o filho do carpinteiro?” (Ib. 13,54-55). “Esse homem não é o carpinteiro?” (Mc 6,3).

Em sua vida pública - anunciando a Boa Notícia do Reino de Deus - Jesus foi sempre próximo e entranhadamente solidário com os Pobres. Como exemplo, cito o caso do homem com a mão direita seca. “Jesus disse ao homem: ‘Levante-se e fique no meio’. ‘Estenda a mão’. O homem assim o fez e sua mão ficou boa” (Lc 6,8.10).

Jesus denunciou, com profunda indignação, a hipocrisia dos doutores da Lei e dos fariseus. “Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão! Assim também vocês: por fora parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça” (Mt 23,27-28).

Na última Ceia, Jesus lavou os pés dos discípulos. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 13,1). “Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).

Jesus foi preso e acusado de “subverter” o povo. “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23,2). Foi morto na cruz como criminoso. “Jesus deu um forte grito: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’. Dizendo isso, espirou” (Ib. 23,46).

Jesus - o Libertador, o Salvador, o Filho de Deus - ressuscitou dos mortos. Às mulheres, angustiadas por não ter encontrado o corpo de Jesus no túmulo, os mensageiros de Deus disseram: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui! Ressuscitou!’” (Ib. 24,5-6).

Jesus enviou o Espírito Santo aos discípulos e discípulas. “Ele lhes disse: ‘A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês’. Tendo falado isso, soprou sobre eles e elas, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo’” (Jo 20,21-22).

Jesus Ressuscitado continua vivo na Comunidade dos seus seguidores e seguidoras. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei aí no meio deles” (Mt 18,20). E ainda: “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Ib. 28,20).

Por fim, pergunto: O que significa viver o Natal de Jesus no mundo de hoje, tão desigual e tão injusto? Se somos seguidores e seguidoras de Jesus, não devemos fazer hoje o mesmo caminho que Jesus fez em sua época? Não devemos “ter o lado dos Pobres” para que - a partir deles e delas e junto com eles e elas - todos e todas “tenham vida e vida em abundância”?

Para a Igreja, a “Opção pelos Pobres” não é “preferencial” (uma alternativa entre duas ou mais alternativas), mas é única; é o caminho “desde a manjedoura”, o caminho de Jesus, o caminho que leva à Vida, à verdadeira Vida. “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6)). Todos e todas - inclusive os ricos - são convidados e convidadas a mudar de vida, praticar a partilha e entrar nesse caminho.

Que o Natal de Jesus seja hoje o nosso Natal! São estes os meus sinceros votos a todos os Irmãos e Irmãs, Companheiros e Companheiras de caminhada. Um Ano 2025 de muitas lutas e vitórias.

 

Marcos Sassatelli - Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

https://freimarcos.blogspot.com/ - Goiânia, 20 de dezembro de 2024


Paróquia Nossa Senhora da Terra - Jardim Curitiba 3 - Goiânia - GO - 2021


A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos